artigo de opinião escrito por João Victor da Silva Fonseca
Com o aumento do consumo de combustíveis fósseis, tecnologias para reduzir as emissões de CO₂ tornaram-se prioridade na comunidade científica. A técnica de CCUS (Carbon Capture, Utilization and Storage) é eficiente pois o CO₂ injetado é utilizado para estimular os reservatórios durante as operações de recuperação avançada de petróleo (EOR) (Yan, 2019). A descoberta de novos campos é cada vez mais difícil; por isso, as técnicas de EOR tornaram-se uma alternativa para ampliar a produção em campos maduros (Kang et al, 2014.). No trabalho de Nunes et al. (2024), são destacadas as características geológicas e geomecânicas favoráveis dos projetos de armazenamento geológico de CO₂ no Pré-Sal. Entretanto, apesar do elevado potencial de armazenamento dos campos do Pré-Sal, apenas uma pequena parcela dessa capacidade foi utilizada até o momento.
Desse modo, evidencia-se que o Brasil possui as características necessárias para ampliar os incentivos às práticas de CCUS, visto que essa tecnologia reúne benefícios ambientais, econômicos e estratégicos capazes de contribuir para a descarbonização da indústria de petróleo e gás.
O potencial geológico brasileiro como fundamento para a expansão de projetos de CCUS
Na minha opinião a implementação de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCUS) torna-se cada vez mais necessária, visto que o Brasil possui capacidade geológica para isso. Nesse contexto, os reservatórios salinos profundos são considerados os principais meios geológicos para o armazenamento de CO₂ devido à sua elevada capacidade de armazenamento. No entanto, reservatórios de petróleo abandonados ou esgotados também se mostram uma alternativa promissora, visto que a ampla disponibilidade de dados petrofísicos e geológicos reduz significativamente as incertezas associadas aos projetos de armazenamento (Nunes et al., 2024).
Além do elevado potencial geológico, o Brasil já possui experiência na aplicação dessa tecnologia. Na minha análise os projetos de CCUS-EOR realizados pela Petrobras, principalmente no Campo de Búzios, apresentam-se como uma alternativa complementar às técnicas de captura e armazenamento de carbono (CCS), uma vez que o CO₂ injetado é utilizado para otimizar a produção de petróleo ao mesmo tempo em que reduz as emissões, proporcionando benefícios econômicos e ambientais (PETROBRAS, 2025). Dessa forma, eu complemento que o Brasil dispõe de uma ampla capacidade geológica disponível para armazenamento, reforçando a necessidade de políticas públicas e investimentos voltados à expansão das práticas de CCUS.
Os benefícios econômicos e ambientais do CCUS para a indústria petrolífera brasileira
Segundo relatórios da International Energy Agency (IEA, 2019; IEA, 2020), um dos principais objetivos das metas climáticas internacionais é a redução das emissões de CO₂. Nesse contexto, é deduzido que o CCUS tornou-se uma das principais tecnologias para alcançar as metas de neutralidade de carbono (Net Zero). De acordo com a PETROBRAS (2023), a produção oriunda do Pré-Sal é rica em gás natural e também em CO₂. Para evitar a liberação de CO₂ presente no gás natural para a atmosfera, foram desenvolvidas tecnologias como o High Pressure Separation (HISEP) que permitem sua separação e reinjeção nos reservatórios (PETROBRAS, 2025). Com base nisso, desde o início das operações de CCUS-EOR, a PETROBRAS (2023) já reinjetou cerca de 40,8 Mton de CO₂ nos reservatórios. Em 2022, o gás reinjetado correspondeu a 25% do volume global de gás injetado que torna o Brasil um grande potencial para atingir as metas.
Os principais desafios enfrentados na expansão do CCUS no Brasil
Na minha opinião o Brasil possui potencial para liderar a corrida para atingir o Net Zero e, apesar dos benefícios ambientais e econômicos proporcionados pelo CCUS, essa prática ainda possui importantes desafios técnicos e operacionais. O principal obstáculo a ser enfrentado em território brasileiro é o elevado custo de implementação dos sistemas de captura, transporte e armazenamento de CO₂. A International Energy Agency (IEA, 2020) destaca que os altos investimentos iniciais representam uma das principais barreiras para a adoção do CCUS em diversos países. Além disso, a instabilidade no valor do barril de petróleo impacta diretamente as decisões de implementação dessa tecnologia.
Outrossim, a interação entre a água e o dióxido de carbono promove a hidratação do CO₂, formando ácido carbônico, sendo essa interação a principal responsável pelo ataque corrosivo que afeta a integridade dos equipamentos utilizados na operação (Kahyarian, 2019). Essa interação aumenta a necessidade de cuidados operacionais, como manutenção, monitoramento das estruturas e escolha de equipamentos adequados para a operação.
Na minha visão a experiência adquirida pela Petrobras desde 2008 demonstra que os desafios técnicos e operacionais associados ao CCUS podem ser superados por meio de investimentos contínuos em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e aperfeiçoamento das práticas operacionais, incentivos fiscais, créditos de carbono e políticas públicas podem fortalecer a viabilidade da expansão dessa tecnologia no Brasil.
Conclusão
Com base nos aspectos supracitados, eu concluo que é evidente que a ampliação das práticas de Carbon Capture, Utilization and Storage (CCUS) constitui uma estratégia indispensável para a descarbonização da indústria brasileira de petróleo e gás. Os projetos de injeção de CO₂ no Pré-Sal demonstram que o Brasil possui capacidade geológica, inovação tecnológica e experiência operacional para expandir essa tecnologia com segurança.
Os projetos de injeção de CO₂ no Pré-Sal demonstram que o Brasil possui capacidade geológica, inovação tecnológica e experiência operacional para expandir essa tecnologia com segurança.
Ademais, é incontestável que os projetos de CCUS contribuem significativamente para a redução das emissões de dióxido de carbono. Além disso, essas práticas possibilitam retorno econômico por meio das técnicas de EOR, que promovem a otimização da recuperação de petróleo, acarretando benefícios ambientais e econômicos. Entretanto, sua implementação ainda enfrenta desafios técnicos e elevados custos iniciais. Todavia, a atuação da Petrobras comprova que essas limitações podem ser superadas por meio do desenvolvimento da pesquisa científica, do avanço tecnológico e da ampliação dos investimentos em infraestrutura e inovação.
Nesse cenário, torna-se fundamental que a indústria, o poder público e a comunidade acadêmica atuem em conjunto para incentivar a expansão dos projetos de CCUS no país. A adoção de políticas públicas, a criação de mecanismos de incentivo e a realização de investimentos contínuos permitirão que o Brasil aproveite seu avanço tecnológico e seu potencial geológico, atuando como referência na descarbonização e transição energética sustentável.


Respostas