artigo de opinião escrito por Bryan da Silva Souza
O Brasil, assim como outros países, experimentou um crescimento expressivo das fontes solar e eólica na matriz elétrica. Conforme o Balanço Energético Nacional 2026 (EPE, 2026), a capacidade instalada da geração solar alcançou 64.794 MW em 2025, dos quais 20.052 MW correspondiam à geração centralizada e 44.742 MW à micro e mini geração distribuída (MMGD). No caso da energia eólica, a capacidade instalada totalizou 34.706 MW em 2025, sendo 34.689 MW provenientes da geração centralizada e 17 MW da MMGD.
A complementaridade entre as fontes eólica e solar é amplamente conhecida e pode ser avaliada por diferentes indicadores estatísticos, como Kendall, Spearman e Pearson (HAJOU et al., 2024; LI et al., 2023). No Brasil, Nascimento et al. (2022) demonstraram a complementaridade entre as fontes eólica offshore e solar.
Com a expansão dessas fontes, a operação do sistema elétrico passou a incorporar novos desafios relacionados à elevada participação dessas tecnologias. A intermitência, aliada ao crescimento da capacidade instalada em ritmo superior à expansão da infraestrutura de transmissão, tem contribuído para o aumento do curtailment, ou redução forçada da geração disponível para assegurar o equilíbrio do sistema elétrico.
O que é a curva de pato?
A “curva de pato” é um desafio associado ao aumento da presença das fontes intermitentes. O fenômeno se caracteriza pela expressiva redução da carga líquida nas horas centrais do dia, decorrente da elevada produção fotovoltaica. Em contrapartida, a redução da geração solar causa o rápido aumento da carga líquida no período noturno. Essas oscilações exigem serviços de regulação de frequência com capacidade de resposta em escala de segundos, preservando a estabilidade do sistema elétrico.
As principais estratégias para mitigar os efeitos da curva de pato são:
- Desenvolvimento de fontes de geração com grande flexibilidade operacional;
- Programas de resposta da demanda (RD);
- Expansão da infraestrutura de armazenamento de energia.
Na minha avaliação, o Brasil deve combinar as três frentes, mas dar atenção especial à resposta da demanda, que aproveita recursos já existentes nos consumidores.
Flexibilidade da geração
No contexto brasileiro, aumentar a flexibilidade da geração encontra obstáculos associados às características dos parques hídrico e térmico. Muitas hidrelétricas têm vazões mínimas obrigatórias e baixa flexibilidade operacional, dificultando a modulação da geração. No parque térmico, parte das usinas opera continuamente quando disponível, e boa parte das termelétricas brasileiras foi contratada e projetada para gerar continuamente (BRANDÃO; REIS; FRANÇA, 2025).
Por isso, aumentar a flexibilidade deve ser prioridade no planejamento elétrico. A expansão das renováveis torna essa característica ainda mais relevante para acompanhar as variações solar e eólica.
Resposta da demanda
A RD desponta como uma solução promissora para mitigar os efeitos da intermitência das fontes renováveis. Os programas podem ser baseados em incentivos ou em tarifas: os primeiros oferecem compensações financeiras aos consumidores que reduzirem seu consumo em momentos críticos, enquanto os segundos procuram alterar o perfil de consumo ao longo do dia conforme as variações dos preços tarifários (ALOTAIBI et al., 2020).
Embora eficaz, a RD depende de tarifas adaptadas, medição avançada e comunicação eficaz com os consumidores. A falta de automação e o potencial impacto desproporcional sobre consumidores vulneráveis também podem limitar sua efetividade (ROSA et al., 2025; NYANGON et al., 2025).
A RD também pode favorecer o aproveitamento das renováveis na expansão da frota de veículos elétricos, minimizando o curtailment. Entretanto, sua efetividade depende do perfil de uso da frota e dos horários de utilização dos veículos (YANG et al., 2024).
Na minha visão, a RD é uma das alternativas mais viáveis no curto e médio prazo, mas depende de avanços em tarifação, medição, automação e digitalização.
Armazenamento de energia
Além da flexibilidade da geração e da resposta da demanda, o armazenamento de energia representa uma das principais estratégias para mitigar a curva de pato. A literatura apresenta soluções como armazenamento de hidrogênio, flywheel e ar comprimido (WU et al., 2025; JI et al., 2024).
Uma das soluções mais promissoras é o BESS (Battery Energy Storage System). Sua utilização pode aliviar o congestionamento da rede e ampliar a flexibilidade do sistema. Entretanto, a implementação do BESS exige infraestrutura digital, modernização regulatória e mecanismos de acesso ao mercado que ainda precisam avançar no Brasil. O BESS também enfrenta desafios relacionados aos custos de investimento e operação.
Considero o armazenamento estratégico para o futuro, mas seus custos e adaptações regulatórias indicam que, neste momento, deve complementar a flexibilidade e a resposta da demanda.
O desafio brasileiro
O avanço das fontes eólica e solar representa um caso de sucesso da transição energética brasileira. Entretanto, a expansão da capacidade instalada, por si só, não garante um sistema elétrico mais eficiente. O surgimento da curva de pato demonstra que utilizar de forma coordenada as fontes renováveis é um dos grandes desafios do processo de descarbonização.
A expansão da capacidade instalada, por si só, não garante um sistema elétrico mais eficiente.
Nesse contexto, promover o aumento da flexibilidade do sistema é fundamental, uma vez que existe a possibilidade futura de esgotamento da flexibilidade do parque gerador devido ao descasamento crescente entre a geração renovável e a carga em nível horário (BRANDÃO; REIS; FRANÇA, 2025). A RD e o BESS despontam como estratégias para reduzir desperdícios, aumentar a confiabilidade e favorecer a integração das renováveis. No entanto, seu potencial depende de mudanças que incluam tarifação de energia, avanços regulatórios e investimentos em medição, automação e digitalização.
Assim, a mitigação da curva de pato no Brasil exigirá uma abordagem integrada, combinando soluções tecnológicas, regulatórias e operacionais. À medida que as fontes intermitentes ganham relevância na matriz elétrica brasileira, torna-se indispensável desenvolver instrumentos que promovam maior flexibilidade do sistema, assegurando confiabilidade, eficiência operacional e sustentabilidade na transição energética.


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