artigo de opinião escrito por Ilan Sampaio Lima
Na Amazônia em meio às grandes florestas e rios vivem milhões de pessoas, e dessas milhões de pessoas, é estimado em torno de um milhão de pessoas sem acesso a energia pelo sistema convencional. Grande parte dessa população sem atendimento adota alternativas imediatas para ter energia elétrica, como os geradores a combustão.
A tecnologia de sistemas de energia solar fotovoltaico isolados surgiu como uma solução energética para essas localidades. Programas do governo como Luz para Todos atendem edificações residenciais em meio a floresta amazônica com uma solução pré-pronta de sistemas isolados. Uma grande barreira para a maior disseminação desse atendimento é a logística dessa região que é complexa.
O clima amazônico é um dos mais críticos em todo planeta. Fortes chuvas e mudança das marés dos rios agravam a questão logística. Grande parte dessa região remota sem acesso a energia, só é possível chegar por viagem de horas ou dias de barco. Sem ferramentas ou redes de comunicação que permitam acompanhar o desempenho dos equipamentos em tempo real, qualquer pequena falha em um componente técnico pode deixar uma comunidade sem energia elétrica por semanas, evidenciando que falta de conhecimento técnico e logística cara afeta a disseminação dessa tecnologia proporcionalmente a distância de um centro urbano.
Outra barreira para ampliação de acesso a energia por meio de sistemas isolados fotovoltaicos é a falta de conectividade e monitoramento de sistemas de energia. Sem esse controle, é difícil fazer esse tipo de serviço fora de programas sociais governamentais. Pois não é viável para concessionárias de energia levar linhas de distribuição pela floresta e rios. Para que o potencial de soluções inovadoras como as microrredes em corrente contínua (MDCC) se c em realidade, o Brasil precisa avançar para modernizar as regras e leis de concessão. Atualmente, o monopólio das distribuidoras cria uma barreira invisível para o capital privado disposto a investir em áreas onde o Estado não alcança. Defendo que a ANEEL avance na criação de uma regulamentação específica para operadores independentes de microrredes isoladas, permitindo que empresas e comunidades transacionem energia de forma local, segura e legal, sem depender da lentidão das grandes redes tradicionais,
pois na Amazônia o modelo tradicional não é viável economicamente e ambientalmente.
Fazendo parte do grupo de estudos e desenvolvimento em alternativas energética, GEDAE da UFPA, vejo uma solução mais robusta para esse cenário, as microrredes de geração em corrente contínua (CC) no Brasil ainda não possuem um marco regulatório específico para aplicações. Essa tecnologia muda completamente a forma como se distribui energia em comunidades, onde a geração é descentralizada, modular e híbrido. Ao simplificar a arquitetura do sistema e eliminar estágios complexos de conversão de energia, nós conseguimos reduzir custos operacionais, ter um sistema mais robusto, menor risco de acidente por choque elétrico, que é comum nesses locais onde a vegetação acaba interferindo, maior eficiência energética.
O diferencial desse modelo de distribuição em corrente contínua desenvolvido pela pesquisa do GEDAE UFPA não está apenas na eficiência energética, mas na capacidade de monitoramento da rede como um todo. Graças as novas tecnologias de aceso a internet via satélite, é possível se comunicar diretamente com cada controlador de carga por meio de interfaces, dessa forma, fazer o diagnóstico da rede a partir de dados coletados em tempo real dá ao sistema maior confiabilidade. A capacidade de enviar dados de geração, consumo e armazenamento, é possível antecipar panes, e se mais redes dessas fossem criadas, otimizar as rotas de assistência técnica, o que se significa menos perdas e falhas na rede.
Naturalmente, soluções acadêmicas e tecnológicas precisam encontrar tração nas políticas públicas para que ganhem escala real de aplicação. É sob essa perspectiva que analiso o papel estratégico de iniciativas estatais, como o Programa Energias da Amazônia liderado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), cujo foco em descarbonizar os sistemas isolados substituindo o diesel por renováveis abre as portas para que seja feita a transição energética dentro da própria floresta, pois a partir do acesso a energia de qualidade e contínua, é naturalmente melhorado os indicadores sociais e econômicos de todas regiões que hoje dependem de combustíveis fósseis.
É compreensível que o Estado não conseguirá atuar de maneira efetiva e eficiente estando distante de quem está na ponta da lança nesse enfrentamento a descarbonização. A agilidade comercial e a capacidade de captação do setor privado e do empreendedorismo social são engrenagens fundamentais para essa mudança. Quando empresas de energia e iniciativas de impacto social atuam com modelos de negócio descentralizados e capacitação comunitária, o investimento se transforma em desenvolvimento humano real, permitindo que as comunidades locais a partir de um investimento inicial, possam com o passar do tempo se autopromover. O fomento da bioeconomia local com aceso as portas do mundo, trazem além de possíveis novos investimentos, a segurança das culturas que sempre coexistiram com a floresta.
O panorama que apresentei ao longo do texto, fica evidente que o acesso à energia na Amazônia não pode mais ser tratado como um sonho distante, mas como a garantia de direitos para toda uma população que vive tão próxima, mas ao mesmo tempo, muito distante. A verdadeira solução nasce do encontro entre a excelência tecnológica desenvolvida dentro da academia, o respaldo regulatório do governo e a eficiência do ecossistema onde todo esse grande universo verde seja viável economicamente, gerando um modelo onde seja visado o avanço tecnológico, político e de segurança sociocultural.


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