A necessidade de incentivo às práticas de CCUS como estratégia de descarbonização no Brasil

A necessidade de incentivo às práticas de CCUS como estratégia de descarbonização no Brasil

02 out, 2026

João Victor da Silva Fonseca

artigo de opinião escrito por João Victor da Silva Fonseca

Com o aumento do consumo de combustíveis fósseis, tecnologias para reduzir as emissões de CO₂ tornaram-se prioridade na comunidade científica. A técnica de CCUS (Carbon Capture, Utilization and Storage) é eficiente pois o CO₂ injetado é utilizado para estimular os reservatórios durante as operações de recuperação avançada de petróleo (EOR) (Yan, 2019). A descoberta de novos campos é cada vez mais difícil; por isso, as técnicas de EOR tornaram-se uma alternativa para ampliar a produção em campos maduros (Kang et al, 2014.). No trabalho de Nunes et al. (2024), são destacadas as características geológicas e geomecânicas favoráveis dos projetos de armazenamento geológico de CO₂ no Pré-Sal. Entretanto, apesar do elevado potencial de armazenamento dos campos do Pré-Sal, apenas uma pequena parcela dessa capacidade foi utilizada até o momento.

Desse modo, evidencia-se que o Brasil possui as características necessárias para ampliar os incentivos às práticas de CCUS, visto que essa tecnologia reúne benefícios ambientais, econômicos e estratégicos capazes de contribuir para a descarbonização da indústria de petróleo e gás.

O potencial geológico brasileiro como fundamento para a expansão de projetos de CCUS

Na minha opinião a implementação de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCUS) torna-se cada vez mais necessária, visto que o Brasil possui capacidade geológica para isso. Nesse contexto, os reservatórios salinos profundos são considerados os principais meios geológicos para o armazenamento de CO₂ devido à sua elevada capacidade de armazenamento. No entanto, reservatórios de petróleo abandonados ou esgotados também se mostram uma alternativa promissora, visto que a ampla disponibilidade de dados petrofísicos e geológicos reduz significativamente as incertezas associadas aos projetos de armazenamento (Nunes et al., 2024).

Além do elevado potencial geológico, o Brasil já possui experiência na aplicação dessa tecnologia. Na minha análise os projetos de CCUS-EOR realizados pela Petrobras, principalmente no Campo de Búzios, apresentam-se como uma alternativa complementar às técnicas de captura e armazenamento de carbono (CCS), uma vez que o CO₂ injetado é utilizado para otimizar a produção de petróleo ao mesmo tempo em que reduz as emissões, proporcionando benefícios econômicos e ambientais (PETROBRAS, 2025). Dessa forma, eu complemento que o Brasil dispõe de uma ampla capacidade geológica disponível para armazenamento, reforçando a necessidade de políticas públicas e investimentos voltados à expansão das práticas de CCUS.

Os benefícios econômicos e ambientais do CCUS para a indústria petrolífera brasileira

Segundo relatórios da International Energy Agency (IEA, 2019; IEA, 2020), um dos principais objetivos das metas climáticas internacionais é a redução das emissões de CO₂. Nesse contexto, é deduzido que o CCUS tornou-se uma das principais tecnologias para alcançar as metas de neutralidade de carbono (Net Zero). De acordo com a PETROBRAS (2023), a produção oriunda do Pré-Sal é rica em gás natural e também em CO₂. Para evitar a liberação de CO₂ presente no gás natural para a atmosfera, foram desenvolvidas tecnologias como o High Pressure Separation (HISEP) que permitem sua separação e reinjeção nos reservatórios (PETROBRAS, 2025). Com base nisso, desde o início das operações de CCUS-EOR, a PETROBRAS (2023) já reinjetou cerca de 40,8 Mton de CO₂ nos reservatórios. Em 2022, o gás reinjetado correspondeu a 25% do volume global de gás injetado que torna o Brasil um grande potencial para atingir as metas.

Os principais desafios enfrentados na expansão do CCUS no Brasil

Na minha opinião o Brasil possui potencial para liderar a corrida para atingir o Net Zero e, apesar dos benefícios ambientais e econômicos proporcionados pelo CCUS, essa prática ainda possui importantes desafios técnicos e operacionais. O principal obstáculo a ser enfrentado em território brasileiro é o elevado custo de implementação dos sistemas de captura, transporte e armazenamento de CO₂. A International Energy Agency (IEA, 2020) destaca que os altos investimentos iniciais representam uma das principais barreiras para a adoção do CCUS em diversos países. Além disso, a instabilidade no valor do barril de petróleo impacta diretamente as decisões de implementação dessa tecnologia.

Outrossim, a interação entre a água e o dióxido de carbono promove a hidratação do CO₂, formando ácido carbônico, sendo essa interação a principal responsável pelo ataque corrosivo que afeta a integridade dos equipamentos utilizados na operação (Kahyarian, 2019). Essa interação aumenta a necessidade de cuidados operacionais, como manutenção, monitoramento das estruturas e escolha de equipamentos adequados para a operação.

Na minha visão a experiência adquirida pela Petrobras desde 2008 demonstra que os desafios técnicos e operacionais associados ao CCUS podem ser superados por meio de investimentos contínuos em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e aperfeiçoamento das práticas operacionais, incentivos fiscais, créditos de carbono e políticas públicas podem fortalecer a viabilidade da expansão dessa tecnologia no Brasil.

Conclusão

Com base nos aspectos supracitados, eu concluo que é evidente que a ampliação das práticas de Carbon Capture, Utilization and Storage (CCUS) constitui uma estratégia indispensável para a descarbonização da indústria brasileira de petróleo e gás. Os projetos de injeção de CO₂ no Pré-Sal demonstram que o Brasil possui capacidade geológica, inovação tecnológica e experiência operacional para expandir essa tecnologia com segurança.

Os projetos de injeção de CO₂ no Pré-Sal demonstram que o Brasil possui capacidade geológica, inovação tecnológica e experiência operacional para expandir essa tecnologia com segurança.

Ademais, é incontestável que os projetos de CCUS contribuem significativamente para a redução das emissões de dióxido de carbono. Além disso, essas práticas possibilitam retorno econômico por meio das técnicas de EOR, que promovem a otimização da recuperação de petróleo, acarretando benefícios ambientais e econômicos. Entretanto, sua implementação ainda enfrenta desafios técnicos e elevados custos iniciais. Todavia, a atuação da Petrobras comprova que essas limitações podem ser superadas por meio do desenvolvimento da pesquisa científica, do avanço tecnológico e da ampliação dos investimentos em infraestrutura e inovação.

Nesse cenário, torna-se fundamental que a indústria, o poder público e a comunidade acadêmica atuem em conjunto para incentivar a expansão dos projetos de CCUS no país. A adoção de políticas públicas, a criação de mecanismos de incentivo e a realização de investimentos contínuos permitirão que o Brasil aproveite seu avanço tecnológico e seu potencial geológico, atuando como referência na descarbonização e transição energética sustentável.

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