Os impactos da IA no planejamento de expansão do sistema elétrico

Os impactos da IA no planejamento de expansão do sistema elétrico

11 nov, 2025

Mateus Modena Neves

artigo de opinião escrito por Mateus Modena Neves

Ao longo dos últimos séculos, novas tecnologias impulsionaram a evolução da humanidade, trazendo mudanças radicais na forma como nos relacionamos, vivemos e pensamos. No século XVI surgiu a prensa móvel, que viabilizou a impressão de livros e textos em larga escala e permitiu a disseminação do conhecimento. Já no século XIX, surgiu o motor a vapor, chave para a primeira revolução industrial, permitindo a produção em série e acarretando o êxodo rural, pois muitas famílias decidiram deixar o campo para as cidades onde as indústrias estavam localizadas. Ainda nesse século, ocorreu o uso da eletricidade como fonte de energia, tornando-a indispensável para a sociedade até os dias atuais. Surgiram também os primeiros telefones, que revolucionaram as comunicações em longas distâncias. No século XX, veio o advento da internet, que continua transformando o mundo em que vivemos. Agora, uma nova tecnologia promete repetir esse ciclo e com uma velocidade sem precedentes. [1]

Cada uma dessas tecnologias teve impacto substancial na nossa forma de viver e influenciou em outras inovações. Como toda tecnologia disruptiva, houve um período de adoção para cada uma delas, durante o qual a sociedade foi aprendendo a conviver e incorporá-las ao cotidiano. Atualmente, estamos na era da inteligência artificial, que apresenta um ritmo de adoção extremamente acelerado, superando a velocidade de todas as tecnologias mencionadas anteriormente [2]. Essa velocidade gera uma demanda acelerada e gigantesca por infraestrutura para suportar o crescente volume de processamento de dados, o que significa mais datacenters e toda a estrutura necessária para sua operação, acomodando centros de processamento, sistemas robustos de refrigeração, redes de comunicação e energia.

Atualmente, entre 10 e 20% da população brasileira faz uso da inteligência artificial em seu dia a dia [2]. Isso significa que ainda há um espaço muito grande para o crescimento dessa tecnologia ao longo dos próximos anos e, ao que a taxa de adoção indica, será um crescimento acelerado. A dúvida que fica é: a infraestrutura física conseguirá acompanhar esse ritmo para suportar a expansão da tecnologia? Estamos falando de infraestruturas gigantescas de datacenters, linhas de transmissão e fontes de geração de energia, além de todo o planejamento para integrar esses empreendimentos ao sistema elétrico de forma segura, sem gerar riscos ao fornecimento para o restante da sociedade.

Quando observamos os prazos de implementação da infraestrutura necessária para a operação de um datacenter, percebemos uma discrepância significativa entre a velocidade de construção do datacenter em si e a da infraestrutura elétrica necessária para suportá-lo. Um datacenter leva, em média, de 12 a 24 meses para ser construído [5], enquanto uma linha de transmissão pode levar de 48 a 60 meses. Isso significa que os reforços necessários para que a rede suporte a carga adicional serão o principal gargalo para esse tipo de empreendimento.

Colocando em números, o datacenter do TikTok em construção no Ceará consumirá 5.040 MWh em uma operação de 24 horas, o equivalente a uma demanda média contínua de 210 MW. Em outras palavras, um único datacenter consumirá mais energia do que cidades inteiras. E não estamos falando de cidades pequenas, ele consumirá mais energia do que 99,9% dos municípios brasileiros, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília [3].

Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, espera-se um acréscimo total de 13,4 GW de carga em função da conexão de novos datacenters até 2038 [4]. Isso equivale à adição de 65 datacenters do porte do empreendimento do TikTok no Ceará, o que resultará em um aumento substancial de carga no sistema e trará uma série de desafios para o setor elétrico brasileiro.

Os datacenters não são cargas tradicionais, representam uma demanda contínua, ininterrupta e concentrada geograficamente.

Esta nova demanda apresenta-se como uma grande oportunidade num momento em que o setor elétrico brasileiro é forçado a desperdiçar geração renovável, fenômeno conhecido como curtailment, porque o sistema de transmissão não consegue escoar toda a energia produzida. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, mas tem dificuldade de aproveitar todo o seu potencial em função das limitações do sistema de transmissão. Os datacenters poderiam instalar-se justamente nas regiões com abundância de fontes renováveis e limitação de escoamento, absorvendo esse excedente e fomentando o desenvolvimento local e novos investimentos em infraestrutura.

É evidente que a abordagem desse desafio deverá ser multidisciplinar. A localização de um datacenter não depende unicamente de energia, mas de uma combinação de fatores como disponibilidade de redes de comunicação, baixa latência, marco regulatório, prazo de conexão e segurança institucional. Não há tecnologia ou estratégia única capaz de acomodar essa expansão. Será necessário agir em várias frentes simultaneamente, revisar os prazos regulatórios de conexão à rede, criar incentivos de localização para datacenters em regiões com excedente de renováveis e modernizar os modelos de planejamento da EPE para incorporar essa nova categoria de carga.

O setor elétrico deve pensar de forma inovadora para garantir a inserção desses empreendimentos, capturar valor, atrair investimentos externos e crescimento econômico e, acima de tudo, garantir que seja possível aproveitar todo o potencial que o nosso país possui.

Referências

[1] https://www.coopersystem.com.br/5-tecnologias-marcantes-ao-longo-da-historia/

[2] https://news.microsoft.com/source/latam/noticias-da-microsoft/relatorio-de-difusao-da-ia-onde-a-ia-e-mais-usada-desenvolvida-e-construida/?lang=pt-br

[3] https://www.intercept.com.br/2025/07/24/descubra-quem-gasta-mais-energia-data-center-tiktok-ou-a-sua-cidade/

[4] https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-894/topico-824/PDE%202035_Relat%C3%B3rio%20para%20Consulta%20P%C3%BAblica.pdf

[5] https://blog.opendock.com/data-center-construction-timeline

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