artigo de opinião escrito por Davi Gadelha Simões Ferreira dos Santos
A expansão das fontes solar e eólica costuma ser apresentada como o principal símbolo da transição energética brasileira. Tal percepção, embora compreensível diante do crescimento acelerado de tais tecnologias, pode induzir a interpretação simplificada de que a modernização da matriz elétrica brasileira depende da substituição gradual da geração hidrelétrica por outras fontes renováveis. No entanto, essa leitura desconsidera uma característica fundamental do Sistema Interligado Nacional (SIN): sua eficiência não resulta apenas da participação de cada fonte na matriz, mas da forma como elas são planejadas e operadas de maneira integrada.
Os dados ajudam a entender por que essa percepção ganhou força. De acordo com o Balanço Energético Nacional (BEN 2026), as fontes renováveis responderam por 86,8% da geração elétrica brasileira em 2025, enquanto a geração solar e eólica cresceram 24,7% e 8,2%, respectivamente, em relação ao ano anterior. À primeira vista, esses números parecem indicar uma substituição progressiva da geração hidráulica. Entretanto, essa interpretação ignora que a expansão das fontes renováveis variáveis não elimina a necessidade de flexibilidade operacional; ao contrário, aumenta sua importância para garantir a segurança e a confiabilidade do suprimento elétrico.
Produzir energia e garantir seu fornecimento contínuo são desafios distintos. Enquanto as usinas hidrelétricas possuem geração despachável, permitindo ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ajustar sua produção conforme as necessidades do Sistema Interligado Nacional (SIN), as fontes eólica e solar caracterizam-se pela variabilidade de sua geração, diretamente condicionada aos recursos naturais disponíveis. À medida que essas fontes renováveis variáveis ampliam sua participação na matriz elétrica, cresce também a necessidade de um sistema suficientemente flexível para acomodar essas oscilações sem comprometer sua segurança operativa. Nesse contexto, os reservatórios hidrelétricos deixam de representar apenas armazenamento de água e consolidam-se como ativos estratégicos de flexibilidade, capazes de modular a geração, fornecer reserva operativa e reduzir a necessidade de intervenções como cortes de geração (curtailment), mecanismo cuja ocorrência tende a aumentar com a expansão das fontes renováveis variáveis quando não acompanhada pela correspondente evolução da operação e da infraestrutura do sistema.
A importância dessa flexibilidade torna-se ainda mais evidente diante dos recentes alertas para um novo episódio de El Niño. Em seu mais recente diagnóstico sobre o fenômeno ENOS (El Niño–Oscilação Sul), o Climate Prediction Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), aponta uma elevada probabilidade de desenvolvimento de um episódio de El Niño nos próximos meses. Ao alterar os padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do país, o fenômeno pode afetar a disponibilidade hídrica dos reservatórios, justamente em um sistema cuja principal fonte de geração permanece sendo a hidrelétrica. Nesse contexto, o desafio do setor elétrico não se limita à disponibilidade de água, mas consiste em preservar a segurança do suprimento eletroenergético diante de condições hidrológicas mais incertas. É nesse cenário que a complementaridade entre as diferentes fontes de geração deixa de representar apenas uma vantagem operacional e passa a constituir um elemento estratégico do planejamento energético brasileiro, permitindo ao Sistema Interligado Nacional responder com maior flexibilidade às oscilações impostas pela variabilidade climática.
Essa lógica já orienta as decisões do setor elétrico brasileiro. Diante da elevada probabilidade de ocorrência de um episódio de El Niño no segundo semestre de 2026, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), seguindo recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), aprovou um conjunto de medidas preventivas para reforçar a segurança do atendimento eletroenergético. Entre elas, destacam-se a antecipação de contratos de reserva de capacidade, adicionando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional (SIN), bem como ações voltadas à preparação da operação diante de possíveis impactos sobre as condições hidrológicas e sobre o consumo de energia. Mais do que respostas circunstanciais, essas decisões evidenciam que a confiabilidade do sistema elétrico depende de planejamento antecipado, coordenação operacional e da atuação integrada dos diferentes recursos disponíveis no SIN.
Esse cenário não representa um retorno ao protagonismo exclusivo das hidrelétricas, tampouco reduz a importância da expansão das fontes solar e eólica. Pelo contrário, à medida que a participação das fontes renováveis variáveis cresce na matriz elétrica, torna-se ainda mais relevante a capacidade das usinas hidrelétricas de fornecer flexibilidade operacional ao sistema, armazenando energia na forma de água e ajustando sua geração conforme as necessidades do operador. A transição energética brasileira, portanto, não consiste em substituir uma fonte por outra, mas em aperfeiçoar a capacidade do Sistema Interligado Nacional de coordená-las de forma complementar, preservando aquilo que orienta todo o planejamento do setor elétrico: a segurança do suprimento eletroenergético.
Diante desse cenário, talvez a principal discussão sobre o futuro da matriz elétrica brasileira não seja decidir qual fonte deverá ocupar o espaço das hidrelétricas. Esse questionamento parte de uma falsa premissa: de que o avanço de uma tecnologia implica, necessariamente, o recuo de outra. A própria evolução da operação do Sistema Interligado Nacional demonstra justamente o contrário. Num contexto de crescentes mudanças climáticas e de expansão das fontes renováveis diversas, o sucesso da transição energética dependerá menos da substituição entre fontes e mais da capacidade de coordená-las de forma complementar, preservando a flexibilidade operacional e a segurança do suprimento eletroenergético. A verdadeira vantagem competitiva do Brasil, portanto, não estará apenas na abundância de seus recursos naturais, mas na capacidade de integrá-los de maneira inteligente para construir um sistema elétrico simultaneamente renovável, resiliente, confiável e preparado para os desafios das próximas décadas. Mais do que escolher a fonte de energia do futuro, o desafio brasileiro será aprender a extrair o melhor de todas elas.
Mais do que escolher a fonte de energia do futuro, o desafio brasileiro será aprender a extrair o melhor de todas elas.


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