O papel da transmissão nos desafios do curtailment

17 jul, 2026

Luiz Miranda

artigo de opinião escrito por João Ricardo Mazzaro dos Santos

O sistema elétrico brasileiro vive um fenômeno recente: em vez da falta de energia, há geração disponível, sobretudo eólica e solar, que não pode ser plenamente aproveitada. Esse é o curtailment, ou o corte forçado por restrições operativas, elétricas ou de escoamento, gerando desperdício de energia limpa e ​prejuízos para quem investiu em renováveis. Em 2025, as perdas devem chegar a R$ 6,5 bilhões com cortes de geração eólica e solar [1]. O assunto ganhou escala e pressiona o setor, trazendo impactos econômicos e regulatórios.

Em 2025, a carga média diária do SIN ficou em 78.146 MWmed (cerca de 78,1 GW) [2]. Já os cortes médios de geração eólica e solar chegaram a 4.021 MWmed (cerca de 4 GW) [1]. Parte disso se deve ao excesso de oferta em certos horários, mas muito está ligado à insuficiência de transmissão. Com mais linhas e flexibilidade de rede, seria possível substituir despachos de fontes caras e poluentes por energia renovável quando disponível.

Desde 2020, aumentaram as usinas eólicas e solares, especialmente no Nordeste, sem expansão equivalente da infraestrutura de transmissão. O potencial renovável está longe dos grandes centros consumidores, concentrados no Sul e Sudeste, e linhas são essenciais para entregar essa energia.

Por isso, conter o curtailment exige soluções de transmissão.

A resposta inicial é ampliar investimentos em novas linhas e reforçar leilões. Uma rede mais robusta e flexível reduz restrições e amplia alternativas para o operador. Porém, novas linhas demoram, em média, quatro anos por conta do ciclo de leilão, licenciamento, logística e obras. Uma expansão desordenada ainda pode reduzir a competitividade dos leilões e pressionar tarifas.

Como alternativa mais rápida e, às vezes, mais barata, vale recapacitar corredores existentes. Ao recondutorar, trocam-se condutores por outros de maior capacidade térmica, como os cabos HTLS, aproveitando infraestruturas e reduzindo tempo e custos de obras e processos fundiários. A ANEEL já autoriza modernizações e reforços em linhas, o que ajuda a mitigar restrições [3].

Outra solução é o BESS, sistemas de armazenamento por baterias, que guardam energia em horários de produção renovável elevada e devolvem nos picos de demanda, reduzindo desperdício e suavizando rampas. Apesar de desafios com custos, regulação e vida útil das baterias, essa solução ganha espaço no mundo e começa a avançar no Brasil, como apontam IEA e IRENA [4].

Já os corredores HVDC (corrente contínua de alta tensão) ajudam a transportar energia por longas distâncias, com perdas menores e vantagens operacionais. O Brasil já opera sistemas HVDC e pode usar essa tecnologia como parte da expansão coordenada para escoar grandes blocos de renováveis do interior para os centros consumidores.

Além disso, mesmo com melhorias na rede, a geração renovável pode eventualmente superar a demanda doméstica, devido à sazonalidade, variações do clima e crescimento do consumo. A integração regional, conectando-se a países vizinhos, pode transformar excedentes em oportunidades, reduzindo desperdício, gerando receitas e fortalecendo a segurança energética.

O curtailment mostra a necessidade de avançar da preocupação só com o suprimento para ampliar infraestrutura e flexibilidade, aproveitando toda a energia renovável gerada. O fortalecimento da transmissão é essencial, mas as soluções devem ser combinadas: novas linhas, recapacitação, armazenamento, HVDC e integração regional.

O caminho envolve planejamento de rede, regulação, incentivo à expansão e flexibilidade. O pacote deve equilibrar reforços críticos na transmissão, agilizar recapacitação, criar segurança regulatória para armazenamento e expandir corredores estruturantes, junto de uma agenda de integração internacional. Assim, o curtailment pode deixar de ser sinônimo de desperdício e se tornar um motor para modernização. O Brasil tem experiência técnica e recursos renováveis em abundância. O desafio é transformar essa vantagem em energia limpa, confiável e eficiente para todos.

Referências

[1] Volt Robotics. “Balanço Anual do Curtailment – 2025: Brasil joga fora 20% da geração de renováveis e acumula prejuízo de R$ 6,5 bi” (jan/2026).
[2] ONS (apresentação institucional em audiência pública na Câmara). “Carga média diária do SIN: cerca de 78.146 MWmed” (02/07/2025).
[3] ANEEL. Autorizações/ações de reforços e melhorias e modernização na transmissão (atos regulatórios e iniciativas de modernização).
[4] IEA e IRENA. Relatórios sobre integração de renováveis, flexibilidade do sistema, redes e armazenamento (sínteses e estudos setoriais).


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