O Paradoxo Energético Brasileiro: Por que a fusão nuclear já é uma questão de presente para o Brasil

O Paradoxo Energético Brasileiro: Por que a fusão nuclear já é uma questão de presente para o Brasil

02 out, 2026

Gabriel Souza

artigo de opinião escrito por Gabriel Souza

A fusão nuclear é, sem dúvida, uma das promessas tecnológicas mais fascinantes do século XXI. Frequentemente rotulada como o “combustível do futuro”, ela promete energia limpa, segura e praticamente inesgotável, utilizando isótopos de hidrogênio como combustível e emitindo apenas hélio como subproduto. No entanto, reduzir a fusão nuclear a uma aposta distante é um erro estratégico que o Brasil não pode mais cometer. Embora a tecnologia ainda esteja em fase experimental, sua relação com o país e com o setor de energia já é uma realidade concreta, que exige investimento, planejamento e visão de longo prazo.

O cenário internacional da fusão nuclear está em plena ebulição. O projeto ITER (Reator Termonuclear Experimental Internacional), sediado na França, é o principal símbolo desse esforço global. Com um orçamento que ultrapassa os 22 bilhões de euros, o ITER reúne 33 nações, incluindo a União Europeia, Estados Unidos, China, Rússia, Japão, Índia e Coreia do Sul. Recentemente, o projeto atingiu um marco significativo: a instalação do sexto dos nove módulos que formarão o núcleo do tokamak, a máquina em formato toroidal que confinará o plasma a temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius. Este avanço, quase seis meses à frente do cronograma, demonstra que, apesar das complexidades técnicas e dos desafios passados, o projeto está progredindo em direção ao seu objetivo: produzir 500 MW de energia com um ganho de Q ≥ 10 (produzir dez vezes mais energia do que a consumida para iniciar a reação).

A China, por sua vez, emergiu como um dos líderes mundiais em fusão, segundo o vice-diretor-geral do ITER, Alain Bécoulet. O país asiático não apenas fornece componentes críticos para o projeto, como supercondutores e ímãs, mas também desenvolve um ecossistema robusto de pesquisa, combinando investimento maciço, cooperação internacional e formação de talentos. A trajetória chinesa, que partiu de laboratórios modestos para se tornar uma potência na área, serve como um alerta e uma inspiração para nações que ainda estão definindo seu papel nesse campo.

“A fusão nuclear não é apenas o combustível do futuro; é o campo de batalha do presente, onde se define a independência tecnológica e a liderança científica das nações.”

E o Brasil, onde se encaixa nessa corrida? A resposta é surpreendentemente mais presente do que se imagina. O país é o único do hemisfério Sul a operar reatores de fusão do tipo tokamak. Atualmente, o Brasil conta com três equipamentos em funcionamento: o Tokamak Esférico (ETE) no Laboratório Associado de Plasma do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o TCABR no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um terceiro em modernização na Universidade Federal do Espírito Santo. Essas máquinas, embora de pequeno porte, são fundamentais para a formação de recursos humanos e para o desenvolvimento de pesquisas em áreas-chave, como o confinamento magnético de plasma e a geração de corrente por ondas de rádio frequência.

A história da pesquisa em fusão no Brasil, contudo, é marcada por altos e baixos. Houve um grande esforço no final dos anos 1980 para criar um programa nacional unificado, mas o insucesso na época levou os grupos a atuarem de forma isolada, com recursos limitados. A descontinuidade de grupos de pesquisa, como o da UNICAMP, expôs a fragilidade de uma política científica sem programas estruturantes e estáveis. A criação da Rede Nacional de Fusão (RNF) em 2006 e a proposta de um novo Programa Nacional de Fusão Nuclear em 2021 representam tentativas de reverter esse quadro. A RNF, coordenada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e integrada por 14 instituições, busca coordenar os esforços, desenvolver a capacitação científica e técnica necessária e viabilizar a participação brasileira em colaborações internacionais.

O Brasil, no entanto, não integra o consórcio do ITER, uma decisão que pode ter sido justificada por custos e incertezas no passado. Apesar disso, um acordo de cooperação com a EURATOM, firmado em 2009, viabilizou intercâmbios e o desenvolvimento de algumas tecnologias. Atualmente, o governo brasileiro demonstra um renovado interesse, com o MCTI instituindo oficialmente a RNF e a CNEN afirmando o compromisso em acelerar o desenvolvimento da tecnologia. Há ainda projetos, como o de um microrreator nuclear de fissão, financiado pela Finep, que, embora não seja fusão, mostra que o país está ativo na busca por soluções nucleares para sua matriz energética.

A defesa da tese de que a fusão nuclear é uma aposta no futuro para o Brasil, portanto, é uma visão limitada. O país está, na verdade, garantindo que, quando esse futuro chegar, não será apenas um consumidor de tecnologia importada, mas um protagonista com capacidade de criar, inovar e competir. A ciência avança em ritmo acelerado no mundo, e a janela de oportunidade para o Brasil se posicionar como um ator relevante é agora. A fusão nuclear não é apenas o combustível do futuro; é o campo de batalha do presente, onde se define a independência tecnológica e a liderança científica das nações. O Brasil já tem os tijolos para construir seu caminho; falta a vontade política e o investimento consistente para erguer o edifício.

Referências

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Rede Nacional de Fusão (RNF): portaria institui rede para pesquisa em fusão nuclear. Brasília, 2025. Disponível em: http://md-m09b.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/md-m09b/2020/12.01.01.35/doc/305%20-20Portal%20do%20Meio%20Ambiente.pdf. Acesso em: 18 ago. 2026.

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CUNHA, A. G.; SCHETTINO JUNIOR, M. A. Novo equipamento permite ampliação de pesquisas sobre fontes de energia limpa. Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2021. Disponível em: https://www.ufes.br/conteudo/novo-equipamento-permite-ampliacao-de-pesquisas-sobre-fontes-de-energia-limpa. Acesso em: 18 ago. 2026.

FUSION FOR ENERGY. ITER Test Blanket Modules move forward. Fusion for Energy, 2026. Disponível em: https://fusionforenergy.europa.eu/news/iter-test-blanket-modules-preliminary-design-review/. Acesso em: 18 ago. 2026.

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