O papel dos Grid-Forming Inverters na transição energética brasileira

O papel dos Grid-Forming Inverters na transição energética brasileira

02 out, 2026

Thomas Ezequiel Amaral Gomes

artigo de opinião escrito por Thomas Ezequiel Amaral Gomes

A transição energética costuma ser associada à expansão da geração renovável e, mais recentemente, aos sistemas de armazenamento por baterias (BESS). De fato, o armazenamento ganhou espaço nas discussões regulatórias e nos planos de investimento por sua capacidade de reduzir a intermitência das fontes eólica e solar. Entretanto, concentrar o debate apenas nas baterias significa observar apenas parte do desafio.

É importante armazenar energia, mas um sistema elétrico confiável depende também da capacidade de manter frequência, tensão e estabilidade diante de perturbações. Nesse contexto, os Grid-forming Inverters (GFM) surgem como uma das tecnologias mais relevantes (apesar de pouco discutida) para a próxima etapa da transição energética.

Durante décadas, a estabilidade dos sistemas elétricos esteve associada aos geradores síncronos presentes em hidrelétricas, termelétricas e usinas nucleares. Além de produzir energia, essas máquinas fornecem inércia eletromecânica, potência de curto-circuito e suporte de tensão, características fundamentais para o funcionamento seguro da rede. Com o crescimento da geração baseada em eletrônica de potência, como parques eólicos, usinas fotovoltaicas e baterias, parte dessas funções deixa de ser fornecida naturalmente. Os inversores convencionais, conhecidos como Grid-following, sincronizam-se com uma rede cuja frequência e tensão já estão estabelecidas e dependem de um sistema robusto para operar adequadamente.

À medida que a participação das fontes renováveis aumenta, essa premissa passa a ser questionada. Em cenários com elevada penetração de recursos conectados por inversores, haverá menos geradores síncronos disponíveis para estabelecer a referência elétrica da rede e nesse cenário os Grid-forming Inverters se tornam fundamentais.

Diferentemente dos inversores convencionais, eles são capazes de estabelecer tensão e frequência de forma autônoma, reproduzindo, por meio de algoritmos de controle, parte do comportamento dinâmico dos geradores síncronos. Com isso, podem fornecer serviços ancilares como suporte de frequência, controle de tensão, operação em ilhamento, capacidade de black start e contribuição para a estabilidade de sistemas com baixa inércia.

Diversos países já tratam essa tecnologia como elemento central de seus planejamentos energéticos. A Austrália é um dos exemplos mais emblemáticos. O Operador do Mercado Nacional de Energia (AEMO), responsável por um dos sistemas com maior participação instantânea de geração renovável do mundo, publicou diretrizes específicas para a adoção de inversores avançados, reconhecendo que a redução da geração síncrona exige novos mecanismos para garantir a segurança operativa. Os estudos da entidade apontam que inversores Grid-forming serão essenciais para permitir níveis cada vez maiores de geração eólica, solar e armazenamento sem comprometer a estabilidade do sistema.

A discussão também avançou rapidamente no Reino Unido. O National Energy System Operator (NESO) conduz projetos de pesquisa voltados para compreender a interação entre recursos Grid-forming, inversores convencionais e geradores síncronos. O objetivo é estabelecer critérios técnicos para que diferentes equipamentos operem de forma coordenada em um sistema elétrico baseado em eletrônica de potência.

No Brasil, por outro lado, o debate ainda se concentra majoritariamente na implantação de BESS e em seus modelos de remuneração. Essa discussão é necessária, mas incompleta. Em maio de 2026, o país possuía aproximadamente 263 GW de potência instalada, dos quais cerca de 88% eram provenientes de fontes renováveis, com destaque para as hidrelétricas, a energia solar e a energia eólica. Essa composição coloca o Brasil em posição privilegiada na transição energética. Ao mesmo tempo, evidencia um desafio de longo prazo, pois à medida que cresce a participação de recursos conectados por inversores, aumenta também a necessidade de que esses equipamentos contribuam para a estabilidade da rede e não apenas para a injeção de potência.

É verdade que a matriz elétrica brasileira ainda conta com uma elevada participação hidrelétrica, o que confere ao Sistema Interligado Nacional uma reserva importante de inércia eletromecânica. Essa característica diferencia o Brasil de mercados como Austrália e Reino Unido, onde a retirada de usinas térmicas ocorreu de forma mais acelerada. Contudo, essa vantagem não elimina a necessidade de planejamento. Os investimentos em transmissão, armazenamento e controle eletrônico devem acompanhar a expansão das renováveis para evitar que limitações operativas se tornem um obstáculo ao crescimento do setor.

Nesse contexto, os sistemas BESS ilustram bem a mudança de paradigma. Frequentemente são tratados como grandes reservatórios de energia, mas seu valor para o sistema elétrico depende diretamente da forma como interagem com a rede. Uma bateria apenas armazena energia, a definição de como essa energia será disponibilizada é dada pelo sistema de conversão de potência. Quando equipado com um inversor Grid-forming, um BESS passa a fornecer serviços de estabilidade, suporte de tensão e controle de frequência.

Uma bateria apenas armazena energia, a definição de como essa energia será disponibilizada é dada pelo sistema de conversão de potência.

Diante desse cenário, a agenda brasileira sobre armazenamento precisa evoluir. O país já iniciou esse movimento por meio das discussões conduzidas pela ANEEL sobre a inserção de sistemas de armazenamento, incluindo eventos técnicos dedicados às experiências internacionais com BESS e Grid-forming. Entretanto, transformar esse debate em diretrizes regulatórias, requisitos técnicos e critérios de planejamento será decisivo para preparar o Sistema Interligado Nacional para uma matriz com participação crescente de recursos baseados em eletrônica de potência.

A transição energética avança a passos largos pela expansão da capacidade instalada de fontes renováveis e pelo número de baterias conectadas ao sistema. No entanto, seu sucesso dependerá, sobretudo, da capacidade de manter um sistema elétrico seguro, resiliente e estável em um cenário cada vez mais dominado por conversores eletrônicos. Os Grid-forming Inverters representam um passo importante nessa direção. Embora ainda ocupem pouco espaço nas discussões públicas, tendem a desempenhar um papel semelhante ao que os geradores síncronos exerceram durante décadas e fornecer os atributos elétricos que tornam possível a operação confiável da rede. Ignorar essa tecnologia significa adiar uma discussão que, em poucos anos, deverá ocupar posição central no planejamento do setor elétrico brasileiro.

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