O Brasil e as Terras Raras: Crítica ao Modelo Extrativista e Caminhos para o Protagonismo na Transição Energética

08 ago, 2026

Luiz Miranda

artigo de opinião escrito por Eliane Ribeiro Januário e Pâmela Costa

As mudanças provocadas pela transição energética e tecnológica têm redefinido o conceito de riqueza mineral: os minerais críticos e as terras raras assumem, no século XXI, o papel estratégico que o petróleo desempenhou no século passado. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 11,4 milhões de toneladas de óxidos, o equivalente a aproximadamente 15% do total global, segundo a revisão mais recente da Agência Nacional de Mineração (ANM) [1]; estimativa que posiciona o país em um momento decisivo: perpetuar o modelo de exportador de matéria-prima bruta ou tornar-se protagonista na cadeia global de valor.

O atual modelo de mineração brasileiro é marcado por uma grande discrepância entre o potencial geológico e a realidade produtiva. Em 2024, o país produziu cerca de 560 toneladas de terras raras, uma fração ínfima das 380 mil toneladas extraídas globalmente, segundo dados oficiais [2]. O início das operações comerciais da Serra Verde, em Goiás, primeira mina de argila iônica em escala fora da Ásia [3], começa a alterar esse quadro, mas os gargalos tecnológicos, regulatórios e de financiamento persistem.

Essa abundância de reservas tem atraído potências como os Estados Unidos, que buscam garantir o fornecimento de minerais brasileiros e reduzir a dependência da China, país que concentra hoje cerca de 85% do refino global de terras raras, fatia que, embora em queda recente, segue esmagadora [4]. Facilitar a entrada de capital estrangeiro sem contrapartidas de transferência de tecnologia arrisca, porém, transformar o Brasil em uma “neocolônia” exportadora. O próprio nióbio serve de advertência: o país responde por mais de 90% da produção mundial e, ainda assim, não capturou os elos de maior valor agregado dessa cadeia [4][5].

A mineração desses elementos é complexa e acarreta custos elevados para os recursos hídricos e os ecossistemas.

O modelo atual de exploração acumula déficits: falta de transparência na divulgação de parâmetros ambientais, ausência de infraestrutura de refino e insuficiência de conhecimento geológico para converter potencial em reservas exploráveis. Estruturar essa cadeia exigirá investimentos de longo prazo em capacidades tecnológicas e industriais, bem como na formação de recursos humanos especializados. Mas o objetivo não pode ser apenas extrair mais: o foco deve ser a industrialização interna, com o país dominando todas as etapas da cadeia produtiva, da separação química dos elementos à fabricação de produtos, como ímãs permanentes de alto desempenho para turbinas eólicas e veículos elétricos.

Outro desafio é que a transição energética precisa ser “verde” em toda a sua cadeia, inclusive na mineração que a sustenta. Isso passa pela mineração circular e pelo reaproveitamento de rejeitos: a Agência Internacional de Energia projeta que a oferta secundária, proveniente da reciclagem, pode dobrar sua participação no suprimento dos principais minerais energéticos, de cerca de 10% hoje para perto de 20% até 2040 [4]. Passa também por uma gestão hídrica integrada, com monitoramento contínuo e metas rigorosas de eficiência no uso da água.

Há sinais de movimento. O Projeto de Lei de Minerais Críticos e Estratégicos, enviado ao Senado em maio de 2026, e o fundo de US$ 1 bilhão, lançado pelo BNDES e pela Finep, para o processamento doméstico e o adensamento da cadeia de valor apontam na direção correta. São, contudo, passos iniciais: sem condicionantes firmes de agregação de valor local, de transferência de tecnologia e de salvaguardas socioambientais, corre-se o risco de que o novo ciclo mineral repita a lógica do antigo.

O potencial mineral do país não é destino. Para que o Brasil lidere a economia verde do século XXI, deve tratar seus minerais críticos como questão de Estado e de soberania, exigindo que a exploração atenda primordialmente ao interesse nacional e ao desenvolvimento sustentável das futuras gerações. O desafio é claro: repetir o passado extrativista ou construir um futuro de protagonismo tecnológico e de justiça socioambiental.

Referências

  1. ANM revisa reservas brasileiras de terras raras para 11,4 milhões de toneladas (≈15% do
    total global). NetZero Circle, 2026. The Net-Zero Circle
  2. USGS, Mineral Commodity Summaries 2026 — Rare Earths (reservas do Brasil: 21
    milhões de toneladas; produção global 2024-2025). Mineral Commodity Summaries
    2026
  3. Serra Verde Group, “Our Operation” — depósito Pela Ema (Minaçu, Goiás): primeiro
    produtor, em escala, fora da Ásia, dos quatro elementos magnéticos de terras raras em
    argila iônica; produção comercial desde o início de 2024. Our Operation — Serra Verde
    Group
  4. IEA (2026), Global Critical Minerals Outlook 2026, IEA, Paris — fatia da China no
    refino de terras raras (85%), oferta secundária (10% → ~20% até 2040) Global Critical
    Minerals Outlook 2026 – Analysis – IEA
  5. Americas Quarterly: “Can Brazil and the U.S. Reach a Deal on Rare Earths?” — nióbio
    (>90% da produção mundial) e cooperação Brasil-EUA. Dezembro de 2025. Can Brazil
    and the U.S. Reach a Deal on Rare Earths?
  6. Serra Verde Group, “Our Operation” — depósito Pela Ema (Minaçu, Goiás): primeiro
    produtor, em escala, fora da Ásia, dos quatro elementos magnéticos de terras raras em
    argila iônica; produção comercial desde o início de 2024. Our Operation — Serra Verde
    Group

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