O carbono mudou a conta da bioenergia brasileira?

O carbono mudou a conta da bioenergia brasileira?

02 out, 2026

Bruna A. Sousa

artigo de opinião escrito por Bruna A. Sousa

Ao decorrer do tempo, os projetos de bioenergia sempre foram avaliados por uma simples lógica: quanto de energia conseguiriam produzir. Um exemplo é que um biodigestor era avaliado apenas pela quantidade de biometano que ele gerava; uma usina de biodiesel, pelos litros comercializados; e qualquer planta de bioeletricidade, pelos megawatts entregues à rede. Hoje percebemos que essa conta ficou defasada e incompleta.

O carbono e os coprodutos passaram a valer dinheiro.

Podemos considerar uma possível transição silenciosa oferecida pela transição energética. A redução das emissões deixou de ser apenas uma certa responsabilidade ambiental para tornar-se um ativo econômico. Essa mudança de modus operandi tem potencial para redefinir o futuro da bioenergia brasileira.

O Brasil reúne condições que poucos países no mundo possuem simultaneamente. A matriz energética mais renovável do mundo, consolidada como liderança na produção de biocombustíveis e uma enorme disponibilidade de resíduos agroindustriais com capacidade de gerar energia. Ainda assim, uma grande parte desse potencial permanece subutilizada. E o problema já não é apenas tecnológico, e sim econômico!

Durante décadas, muitos projetos deixaram de sair do papel porque exclusivamente precisavam da venda de energia. Bastava uma queda no preço da eletricidade ou do combustível para comprometer toda a viabilidade do investimento. Agora, temos uma nova lógica. Além da energia produzida, passa a existir valor naquilo que o projeto deixa de emitir.

Um exemplo mais claro dessa mudança é um biodigestor. Consegue capturar o metano gerado pela decomposição dos resíduos orgânicos, impedindo que um dos gases de efeito estufa mais potentes chegue à atmosfera. Logo em seguida, transforma esse mesmo metano em biometano, com capacidade de substituir o gás natural fóssil na indústria, no transporte ou na geração elétrica.

Mas a história não termina aí. O processo também produz um digestato rico em nutrientes, podendo ao fim ser utilizado como biofertilizante, devolvendo nitrogênio, fósforo e potássio ao solo, o que ao fim reduz a dependência de fertilizantes minerais, muitos deles sendo importados pelo Brasil. Assim, um único empreendimento passa a gerar múltiplas receitas, sendo elas energias renováveis, créditos de carbono, biofertilizantes e benefícios ambientais associados ao tratamento de resíduos. O que antes seria apenas visto como um sistema de geração de energia torna-se uma plataforma de produção de ativos ambientais e econômicos.

Essa mudança altera profundamente a forma como os possíveis investidores olham para o setor. Antes, uma receita que vinha quase que exclusivamente da venda de energia. Hoje, entram na equação créditos de carbono, CBIOs, certificações ambientais e outros instrumentos que remuneram a descarbonização. Na maioria dos casos, a redução das emissões pode ser justamente o fator que transforma um projeto tecnicamente viável em um investimento financeiramente atrativo.

O avanço do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) reforça ainda mais essa tendência. Embora sua regulamentação ainda esteja em construção, o princípio já está mais estabelecido: emitir carbono passará a ter custo crescente. Se poluir custa mais, soluções capazes de reduzir emissões passam a valer mais. Essa é uma mudança de mercado, não apenas de política ambiental.

Se poluir custa mais, soluções capazes de reduzir emissões passam a valer mais.

Lembrando do biometano, seja o maior beneficiado, pois trata resíduos, reduz as emissões de metano, substitui combustíveis fósseis, fortalece a economia circular e ainda amplia a segurança energética. Poucas tecnologias conseguem combinar tantos benefícios em uma única cadeia produtiva.

O mesmo raciocínio vale no Brasil para outros biocombustíveis. O biodiesel continua expandindo sua participação na matriz energética nacional, enquanto os combustíveis sustentáveis (SAF) despontam como uma das principais apostas para descarbonizar um setor que dificilmente será eletrificado nas próximas décadas. Em todos os casos, a quantidade de carbono do combustível passa a ser tão relevante quanto sua eficiência energética.

Mas é uma ingenuidade acreditar que o mercado resolverá tudo sozinho.

O Brasil ainda necessita consolidar a regulamentação do SBCE, estabelecer metodologias confiáveis para medir emissões evitadas e reduzir os custos de certificação, principalmente quando se tratar de pequenos produtores. Caso não consiga essas condições, apenas as grandes empresas consigam acessar os benefícios econômicos do mercado de carbono, ampliando desigualdades em vez de acelerar a transição energética.

Há uma grande necessidade de amadurecimento do debate da bioenergia. Durante anos, discutimos quase exclusivamente quantos litros de biodiesel produzir, quantos metros cúbicos de biometano gerar ou quantos megawatts serão injetados na rede. Perguntas que continuam importantes, mas já não suficientes. A questão decisiva passa a ser outra: quanto carbono cada projeto consegue evitar?

Essa é a métrica que tende a orientar investimentos, políticas públicas e decisões empresariais nos próximos anos.

Reconhecemos que o Brasil chega nessa nova etapa em posição privilegiada. Tem uma certa abundância de biomassa, conhecimento científico acumulado e uma indústria de biocombustíveis consolidada. Faltando apenas transformar esse potencial em vantagem competitiva.

A bioenergia sempre foi vista apenas como uma forma de produzir energia limpa. Agora, ela assume um papel ainda mais estratégico: produzir energia enquanto reduz emissões. Em um mundo onde começa-se a precificar o carbono, essa diferença pode definir quem liderará a próxima etapa da transição energética.

O futuro da bioenergia brasileira talvez não dependa mais apenas da energia que ela produz, mas simplesmente do carbono que consegue deixar de emitir.

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