O Brasil não precisa de mais vento. Precisa de visão para liderar a energia eólica offshore

O Brasil não precisa de mais vento. Precisa de visão para liderar a energia eólica offshore

02 out, 2026

Júlia Urbano Ferreira da Silva

artigo de opinião escrito por Júlia Urbano Ferreira da Silva

O Brasil não precisa descobrir novos ventos para liderar a transição energética. Eles já existem. O verdadeiro desafio é transformar um dos maiores potenciais eólicos offshore do mundo em uma indústria capaz de gerar inovação, desenvolvimento econômico e empregos qualificados. Em um cenário global marcado pela busca por fontes de energia mais limpas, seguras e competitivas, a energia eólica offshore desponta como uma oportunidade estratégica para o país. No entanto, defendo que a liderança brasileira nesse setor dependerá menos da força dos ventos e mais da capacidade de construir um ambiente favorável aos investimentos, à inovação e à formação de profissionais preparados para essa nova realidade.

Essa oportunidade não é apenas uma expectativa otimista. O Roadmap Eólica Offshore Brasil, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), aponta um potencial técnico próximo de 700 GW considerando áreas com profundidades de até 50 metros e ventos acima de 7 m/s. Com um litoral de aproximadamente 7.367 quilômetros e ventos constantes, especialmente nas regiões Nordeste e Sul, o país reúne condições naturais capazes de favorecer o desenvolvimento dessa indústria. Além disso, o relatório Offshore Wind Outlook 2019, da Agência Internacional de Energia (IEA), destaca o potencial da energia eólica offshore para assumir um papel relevante nos sistemas energéticos e contribuir para os esforços de descarbonização nas próximas décadas.

Entretanto, possuir recursos naturais privilegiados não garante, por si só, uma posição de liderança. A história demonstra que vantagens geográficas precisam ser acompanhadas por planejamento estratégico, investimentos e políticas públicas consistentes. Em um mercado global cada vez mais competitivo, o potencial natural deixa de ser suficiente quando não é acompanhado por infraestrutura, segurança regulatória e visão de longo prazo.

A implantação de parques eólicos offshore exige investimentos bilionários e uma cadeia produtiva altamente especializada. São necessários portos preparados para receber componentes de grandes dimensões, embarcações específicas para transporte e instalação das turbinas, sistemas de transmissão eficientes e fornecedores capazes de atender às demandas de um setor altamente tecnológico. Além disso, investidores buscam previsibilidade regulatória para projetos de longo prazo e elevado custo inicial. Sem um ambiente seguro para investimentos, mesmo países com enorme potencial podem perder competitividade para mercados mais estruturados.

Outro aspecto que merece atenção é o licenciamento ambiental. A expansão da energia eólica offshore deve ocorrer de forma responsável, considerando seus impactos sobre a biodiversidade marinha, as atividades pesqueiras e as comunidades costeiras. O desenvolvimento sustentável não consiste apenas em ampliar a participação das fontes renováveis, mas também em garantir que essa expansão ocorra com base em critérios técnicos, diálogo com a sociedade e respeito ao meio ambiente. A transição energética só será verdadeiramente sustentável se caminhar lado a lado com a preservação dos ecossistemas marinhos.

Uma das maiores vantagens competitivas do Brasil está justamente na experiência acumulada ao longo de décadas de atuação offshore na indústria de óleo e gás. Embora esses setores sejam frequentemente apresentados como concorrentes, acredito que existe uma importante relação de complementaridade entre eles. O conhecimento desenvolvido em engenharia, logística marítima, construção naval, manutenção e segurança operacional representa uma base sólida para acelerar a implantação da energia eólica offshore. Aproveitar essa experiência não significa retardar a transição energética, mas utilizá-la como uma ponte para construir um novo mercado de forma mais eficiente, segura e competitiva.

Além da infraestrutura e da regulação, existe um fator que considero decisivo para o sucesso dessa indústria: as pessoas. A expansão da energia eólica offshore exigirá profissionais capazes de integrar conhecimentos de engenharia, tecnologia, meio ambiente, inovação e gestão de projetos. Formar essa mão de obra demanda investimentos em universidades, pesquisa científica, capacitação profissional e maior aproximação entre empresas e instituições de ensino. Em um setor em constante evolução, formar talentos pode ser tão importante quanto desenvolver novas tecnologias. Investir em pessoas, portanto, é investir na própria competitividade do país.

Para os jovens profissionais, esse cenário representa uma oportunidade única. A transição energética está criando carreiras que exigem visão sistêmica, capacidade de adaptação e aprendizado contínuo. Mais do que dominar ferramentas técnicas, será fundamental compreender como diferentes áreas do conhecimento se conectam para solucionar desafios complexos. Nesse contexto, iniciativas que aproximam estudantes do setor energético desempenham um papel essencial na formação de profissionais capazes de liderar essa transformação.

Também é importante reconhecer que a energia eólica offshore não substituirá todas as demais fontes de energia no curto prazo. O futuro do setor energético brasileiro será, muito provavelmente, construído pela complementaridade entre diferentes tecnologias, combinando fontes renováveis, armazenamento de energia, modernização das redes elétricas e soluções que garantam segurança no abastecimento. A eólica offshore deve ser compreendida como parte dessa estratégia integrada, e não como uma solução isolada.

O Brasil reúne condições que poucos países possuem para ocupar uma posição de destaque nesse mercado. Recursos naturais abundantes, experiência consolidada em operações marítimas e um mercado energético de grande porte formam uma combinação rara. No entanto, essa oportunidade não será aproveitada apenas pela força dos ventos. Ela dependerá da capacidade de fortalecer a infraestrutura, estimular a inovação, consolidar uma cadeia produtiva nacional, garantir segurança regulatória e investir na formação de profissionais preparados para os desafios dessa nova indústria.

O Brasil já possui os ventos necessários para liderar a energia eólica offshore. O que falta construir é um ecossistema capaz de transformar esse potencial em desenvolvimento econômico, inovação tecnológica, geração de empregos qualificados e maior segurança energética. A liderança nesse setor não será definida apenas pela geografia, mas pelas escolhas feitas hoje. Os ventos já sopram a favor do Brasil. O que determinará nosso futuro não será a intensidade deles, mas a visão com que decidiremos aproveitá-los.

Os ventos já sopram a favor do Brasil. O que determinará nosso futuro não será a intensidade deles, mas a visão com que decidiremos aproveitá-los.

Referências

  • EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Roadmap Eólica Offshore Brasil. Rio de Janeiro: EPE, 2020. O estudo foi elaborado especificamente para analisar barreiras, desafios e caminhos para o desenvolvimento da eólica offshore brasileira. Roadmap Eólica Offshore Brasil — EPE
  • INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Offshore Wind Outlook 2019. Paris: IEA, 2019. O relatório analisa o potencial global da tecnologia, sua expansão e seu papel nas transições para sistemas energéticos mais limpos. Offshore Wind Outlook 2019 — IEA

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