Até onde o hidrogênio de baixo carbono é viável para o Brasil?

17 jul, 2026

Luiz Miranda

artigo de opinião escrito por Wanda Carolina Engfer

As mudanças climáticas e a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa têm impulsionado a busca por alternativas energéticas mais sustentáveis. Nesse contexto, o hidrogênio de baixo carbono ganhou destaque como uma das principais apostas para a transição energética.

O Brasil ocupa uma posição estratégica na nova economia do hidrogênio. O país possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com forte participação de fontes hidráulica, eólica e solar, além de ampla disponibilidade territorial. Esse cenário permite a produção de hidrogênio de baixo carbono a custos potencialmente competitivos. (EPE; ITAIPU PARQUETEC, 2025)

Além disso, o país já apresenta movimentações cruciais voltadas ao setor. A recente aprovação do Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Lei nº 14.948/2024) e a criação de programas de incentivo com bilhões em créditos fiscais previstos até 2034 demonstram que existe interesse econômico e político na consolidação dessa cadeia.

Entretanto, o potencial brasileiro não elimina os desafios associados à expansão dessa cadeia. Para que o hidrogênio de baixo carbono se torne economicamente viável, será necessário superar barreiras relacionadas à maturidade tecnológica, à infraestrutura e aos custos de energia e insumos. Por isso, a discussão não deve se concentrar apenas em produzir hidrogênio, mas em identificar os setores em que sua aplicação gera maior valor para o país.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (2026), a consolidação do mercado dependerá da implementação de instrumentos adicionais de política pública capazes de induzir a demanda doméstica, sobretudo em setores hard-to-abate, como siderurgia, cimento e química pesada.

O setor siderúrgico é um dos exemplos mais relevantes dessa necessidade. O maior potencial para a integração do hidrogênio nas siderurgias brasileiras reside na injeção parcial nos altos-fornos, uma vez que esta é a rota mais comum no país e não há, atualmente, plantas utilizando a rota de redução direta (DRI). No entanto, a introdução da molécula, mesmo que de forma parcial, exigirá adaptações industriais significativas, dado que o hidrogênio não faz parte dos processos vigentes nessas unidades.

Segundo a H2Brasil (2023), a cadeia siderúrgica pode gerar uma demanda expressiva por hidrogênio nas próximas décadas. Partindo da premissa de um consumo de 25 kg de hidrogênio por tonelada de ferro produzida, com um crescimento anual projetado de 3,1%, o país alcançaria 1,48 milhões de toneladas anuais até 2050. Mais do que viabilizar o mercado interno da molécula, essa injeção nos altos-fornos poderá reduzir a emissão de mais de 10 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano.

Outra indústria de destaque é a de fertilizantes, que desponta como uma oportunidade estratégica e urgente, pois o Brasil consome cerca de 8% da amônia global, mas importa entre 76% e 85% dos fertilizantes nitrogenados exigidos pelo seu agronegócio. Como a demanda nacional por esses insumos deve dobrar até 2050, fortalecer o Plano Nacional de Fertilizantes e expandir as Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (FAFEN) torna-se crucial para maximizar a produção e reduzir a dependência externa (SAE, 2021).

As tecnologias para descarbonização da amônia já são maduras, o que favorece a substituição do hidrogênio fóssil.

O grande obstáculo para a transição das plantas industriais, contudo, é econômico. Sem incentivos que valorizem adequadamente a amônia verde, a viabilidade esbarra no preço do hidrogênio renovável, que chega a representar mais de 90% do custo final do produto (Ishaq & Crawford, 2024). Somado a isso, há o desafio do fator de capacidade: plantas industriais intensivas em capital encarecem significativamente o produto final quando operam de forma intermitente, reféns das oscilações naturais de fontes renováveis variáveis, como a eólica e a solar (Ahmed et al., 2024).

Por outro lado, existem aplicações em que o hidrogênio apresenta baixa competitividade tecnológica no Brasil. O uso em veículos leves de passeio é o maior exemplo. Devido à forte concorrência dos biocombustíveis consolidados, como o etanol, criar uma infraestrutura nacional de abastecimento de hidrogênio para carros de passeio seria economicamente inviável (FGV, 2023).

Dessa forma, insistir na adoção indiscriminada do hidrogênio pode resultar em investimentos pouco eficientes e na alocação inadequada de recursos. O Brasil possui vantagens naturais incomparáveis, mas precisa direcionar investimentos e subsídios estatais para as aplicações em que a molécula realmente apresente eficiência sistêmica.

Portanto, o hidrogênio de baixo carbono possui potencial para desempenhar um papel estratégico na transição energética brasileira, especialmente em setores industriais de difícil descarbonização, como siderurgia, fertilizantes e química pesada. Entretanto, seu sucesso dependerá da capacidade de direcionar investimentos para aplicações em que a tecnologia apresente vantagens reais frente às alternativas já disponíveis. Mais do que buscar uma solução universal, o desafio brasileiro será utilizar o hidrogênio de forma estratégica, maximizando benefícios econômicos, ambientais e industriais para o país.

Referências bibliográficas

AHMED, H. S. et al. Sustainable pathways to ammonia: a comprehensive review of green production approaches. Clean Energy, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 60–72, 2024.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DO HIDROGÊNIO VERDE. Agenda Estratégica 2026. São Paulo: ABIHV, 2026. Disponível em: https://abihv.org.br/wp-content/uploads/2026/03/19-02-AGENDA-ESTRATEGICA-2026-v3-10-1.pdf. Acesso em: 28 maio 2026.

EPE; ITAIPU PARQUETEC. Roadmap Tecnológico de Hidrogênio: Rotas tecnológicas, oportunidades de inovação e custos de produção de hidrogênio de diferentes intensidades de carbono no Brasil. Brasília: EPE, 2025. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-899/Roadmap%20H2%20-%20EPE-PTI%20-%20Tecnologia%20(VF).pdf. Acesso em: 26 maio 2026.

FGV. Caderno FGV Energia Hidrogênio de Baixo Carbono: a importância dos avanços em questões estruturantes. [S. l.: s. n.], 2023. Disponível em: https://fgvenergia.fgv.br/publicacao/caderno-fgv-energia-hidrogenio-de-baixo-carbono-importancia-dos-avancos-em-questoes. Acesso em: 28 maio 2026.

H2BRASIL. Cenários de produção, custos e emissões de hidrogênio verde e azul horizonte de até 2050 no Brasil. [S. l.: s. n.], 2023. Disponível em: https://www.bivica.org/files/7061_2.3_CenariosH2V.pdf. Acesso em: 27 maio 2026.

ISHAQ, H.; CRAWFORD, C. Review of ammonia production and utilization: enabling clean energy transition and net-zero climate targets. Energy Conversion and Management, [s. l.], v. 300, p. 117869, 2024.

SAE. Plano Nacional de Fertilizantes 2050. Brasília: [s. n.], 2021. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2022/03/plano-nacional-de-fertilizantes-brasil-2050.pdf. Acesso em: 27 maio 2026.

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