artigo de opinião escrito por Eugênio do Carmo Bandeira Cruz
As recentes ondas de calor que estão atingindo a Europa trouxeram um novo termo para o debate no setor energético: Hitzeflaute. O fenômeno acontece quando temperaturas extremamente elevadas aumentam a demanda por eletricidade, principalmente pelo uso de ar-condicionado nas casas, ao mesmo tempo em que a geração eólica permanece baixa e a energia solar desaparece no fim da tarde. Em 18 de junho de 2026, na Bélgica, o preço da eletricidade foi de cerca de 11 euros por megawatt-hora à tarde para 550 euros por volta das 20h45, quase 50 vezes mais caro, enquanto na Alemanha o mercado spot chegou a 545 euros por MWh no mesmo dia. O fenômeno se espalhou na mesma noite por praticamente toda a Europa Ocidental.
Mais do que um problema pontual, o Hitzeflaute apresenta uma mudança estrutural. Durante décadas, o planejamento energético focou em expandir a oferta para acompanhar o crescimento da demanda. Mas em um sistema com participação crescente de várias fontes renováveis, produzir mais energia limpa já não é suficiente, o desafio acaba sendo garantir que essa energia esteja disponível no momento exato em que a sociedade mais precisa dela. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda elétrica global crescerá mais de 3,5% ao ano até 2030, pelo menos 2.5 vezes mais rápido que a demanda energética total, causada por veículos elétricos, ar-condicionado e a expansão de data centers e inteligência artificial. Hoje, mais de 2.500 gigawatts em projetos de renováveis, armazenamento e grandes cargas aguardam conexão às redes elétricas do mundo, uma fila que mostra o desalinhamento entre a velocidade da eletrificação e a velocidade da infraestrutura.
É nesse contexto que a IEA defende, em seu relatório Scaling Up Demand Flexibility (2026), que gerenciar quando e onde a eletricidade é consumida está se tornando tão importante quanto gerenciar o quanto é gerado. Estima-se que a necessidade de flexibilidade de curto prazo pode crescer entre duas e sete vezes até 2035. Ainda assim, o potencial permanece amplamente inexplorado, apenas cerca de 100 gigawatts de resposta da demanda são efetivamente utilizados hoje no mundo, contra um potencial de 600 gigawatts só em ar-condicionado residencial e 160 gigawatts na produção global de alumínio, uma das atividades industriais mais eletrointensivas e com maior potencial para deslocar parte do consumo em resposta às condições da rede. Baterias, tarifas horárias e resposta da demanda deixaram de ser apoio, em um sistema com fontes variáveis, elas se tornam centrais para garantir energia quando e onde ela é necessária.
É nesse cenário de falta de flexibilidade que entram os data centers de inteligência artificial. Eles representam uma categoria de consumidor elétrico historicamente inflexível. Por décadas, a lógica de projeto foi simples: um servidor roda, então precisa de eletricidade constante, e quem quisesse conectar uma instalação desse tipo à rede precisava garantir ao operador uma carga fixa, alta e ininterrupta. Essa característica é praticamente o oposto do que uma rede com alta participação de energia solar e eólica precisa.
Os dados explicam a urgência. Segundo a Gartner, o consumo elétrico global de data centers deve crescer 26% em 2026, pulando de 447 para 565 terawatts-hora, com a demanda total do setor passando de 104 para 132 gigawatts no mesmo período, e podendo atingir 290 gigawatts até 2030. Só os servidores otimizados para IA vão consumir cerca de 175 TWh em 2026, um salto de 84,2% em relação ao ano anterior, chegando a 258 TWh em 2027. E o consumo total de data centers deve alcançar 702 TWh já em 2027, com projeções que ultrapassam 1.200 TWh até 2030. Essa trajetória é consistente com as projeções da IEA, segundo as quais a demanda por eletricidade de data centers de IA deverá mais que quadruplicar até 2030, nos Estados Unidos, o processamento de dados deve consumir, até o fim dessa década, mais eletricidade do que toda a indústria pesada do país (alumínio, aço, cimento e químicos) combinada. Na Alemanha, esse consumo deve saltar de 20 TWh em 2024 para cerca de 80 TWh em 2045, um aumento de quase 400%.
O problema não é apenas o volume, mas a concentração. Data centers tendem a ser construídos próximos uns dos outros, mais concentrados que outras infraestruturas de intensidade elétrica comparável, o que pode sobrecarregar redes locais inteiras. Em uma Hitzeflaute, esse padrão se traduz em pontos de ruptura concentrados exatamente onde a margem de segurança da rede já é menor, e cada gigawatt adicional de carga fixa é um gigawatt a mais competindo pela mesma capacidade de reserva (baterias, gás) que deveria proteger o consumidor comum durante o pico de calor.
Apesar desse cenário, já começam a surgir iniciativas para tornar os data centers participantes ativos da operação do sistema elétrico. Fabricantes e operadores passaram a testar modelos em que parte das cargas computacionais (treinamentos de modelos, processamento em lote e outras tarefas menos sensíveis ao tempo) pode ser deslocada para horários de menor estresse elétrico ou maior disponibilidade de energia renovável. Em março de 2026, a NVIDIA e a Emerald AI anunciaram o DSX Flex, uma arquitetura voltada a tornar data centers de IA capazes de responder a sinais da rede elétrica. Em testes realizados em cinco data centers comerciais, a tecnologia demonstrou ser capaz de reduzir temporariamente o consumo de energia durante períodos críticos, preservando as cargas prioritárias e retomando o processamento quando a disponibilidade de eletricidade aumentava.
Essa flexibilidade ainda é exceção, e é exatamente por isso que ela deveria estar mais no centro do debate regulatório sobre IA e energia. O resultado de não fazer nada afeta toda a sociedade, quando o sistema perde flexibilidade, os preços disparam, fontes mais caras precisam ser acionadas às pressas e a volatilidade do mercado aumenta, como mostraram os saltos de preço na Bélgica e na Alemanha. Esses custos chegam, com atraso, à conta de luz residencial e à competitividade de setores industriais inteiros.
A conclusão que se impõe é que a próxima fase da transição energética não vai ser definida apenas pela quantidade de energia renovável instalada, mas pela capacidade do sistema elétrico de ser inteligente, resiliente e flexível. O Hitzeflaute não é uma falha das renováveis, é o sintoma de uma transição que ainda trata geração e consumo como blocos separados. E os data centers de inteligência artificial, que hoje pioram esse problema por conta da sua rigidez operacional, têm também o potencial técnico de fazer parte da solução, desde que a flexibilidade deixe de ser algo opcional e passe a ser exigência regulatória. Eventos climáticos extremos vão continuar acontecendo sempre, o quanto eles vão custar para a sociedade depende de decisões de infraestrutura e de mercado que estão sendo tomadas agora.
O Hitzeflaute não é uma falha das renováveis, é o sintoma de uma transição que ainda trata geração e consumo como blocos separados.
Referências
- AlgorithmWatch. “KI und Rechenzentren: Woher die ganze Energie nehmen?” 2026.
- Bundesministerium für Wirtschaft und Energie / Borderstep Institut. “Stand und Entwicklung des Rechenzentrumsstandorts Deutschland.” 2025.
- Gartner. “Data Center Electricity Demand to Grow 26% in 2026.” Jun. 2026.
- IEA. “Energy and AI.” Relatório especial. Abr. 2025.
- IEA. “Electricity 2026” e “Scaling Up Demand Flexibility.” 2026.
- NVIDIA. “NVIDIA and Emerald AI Join Leading Energy Companies to Pioneer Flexible AI Factories as Grid Assets.” Mar. 2026, CERAWeek.
- Scholt Energy. “Hitzeflauten und ihre Auswirkungen auf den Strompreis.” Jun. 2026.
- VRT NWS. “Stroomprijzen van 11 naar 550 euro per megawattuur: ‘Hitzeflaute’ slaat hard toe in België.” Jun. 2026.


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