artigo de opinião escrito por Luiza Carvalho
O Brasil gosta é uma potência em energia renovável, mas a realidade do Sistema Interligado Nacional mostra um paradoxo incômodo: enquanto eólicas e solares crescem no papel, o Operador Nacional do Sistema segue obrigado a cortar milhares de megawatts de geração renovável por falta de rede adequada e limites operativos do sistema. Em outras palavras, podemos concluir da forma mais cara possível que não existe transição energética séria sem uma política coordenada de transmissão.
Nos últimos meses, o Nordeste voltou a sofrer restrições expressivas de geração renovável. Em março de 2026, o operador precisou limitar quase 2 GW de eólica e solar em diferentes regiões do país, com redução máxima de 1.944 MW no Nordeste, justamente para preservar a estabilidade da frequência e evitar sobrecarga em trechos da rede. O próprio ONS deixa claro que esses cortes ocorrem, entre outros motivos, por falta de infraestrutura de transmissão, linhas no limite da capacidade e momentos de excesso de oferta em relação à demanda.
Esses números demonstram um problema estrutural, a concentração de grande parte do potencial eólico e solar em regiões como Nordeste e parte do Norte, enquanto o grosso da carga está no Sudeste e no Sul. A consequência é clara, sem novos corredores de transmissão e reforços em pontos estratégicos, o país transforma uma fonte abundante de energia em um recurso que não consegue chegar ao consumidor final no momento em que é necessário. Não por acaso, o governo federal passou a tratar leilões de transmissão como prioridade, com projetos de grande porte para reforçar as interligações Norte–Sul e Nordeste–Sudeste, descritos em comunicados recentes do Ministério de Minas e Energia.
O custo desse atraso já está aparecendo no lado econômico.
Reportagens recentes mostram que empresas do setor de energia renovável chegaram a suspender bilhões de reais em investimentos previstos para 2025 e 2026 no Nordeste, citando justamente a combinação de cortes frequentes de geração, falta de capacidade de escoamento e insegurança regulatória. A mensagem ao investidor é contraditória, o país incentiva a expansão das renováveis, mas na prática não garante infraestrutura para monetizá-las plenamente.
Do ponto de vista de governança, há sinais de avanço. O ONS lançou um painel interativo em Power BI, dedicado ao acompanhamento das restrições de geração eólica e fotovoltaica, oferecendo uma visão mais granular dos cortes, motivos e localização, o que aumenta a transparência sobre o problema. Ao mesmo tempo, análises de mercado têm destacado o papel estratégico de leilões de transmissão recentes, como o Leilão 01/2026, para destravar o escoamento das renováveis e reduzir o curtailment no Nordeste.
A agenda está posta, mas ainda carece de metas claras de desempenho, é necessário falar em expansão da transmissão com metas explícitas e mensuráveis de redução de MWh renováveis desperdiçados, cronograma firme para reforços estruturais e integração entre leilões de geração e transmissão desde a concepção do planejamento. Do contrário, corremos o risco de consolidar um modelo em que exibe ao mundo seu enorme potencial renovável, mas continua incapaz de aproveitá-lo plenamente.


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