artigo de opinião escrito por Jamilly Castro de Sousa
Diante da “maior ameaça à segurança energética global da história”, segundo o Diretor Executivo da AIE (Agência Internacional de Energia), gerada por um conflito entre países do Oriente Médio, destaca-se a importância de avaliar estratégias utilizadas no passado para melhorar o desempenho do Brasil frente a essa ameaça.
O governo brasileiro já passou por diversas crises energéticas ao longo de sua história, sendo as maiores desencadeadas por conflitos envolvendo países do Oriente Médio, região em que se localizam os maiores produtores de petróleo do mundo.
Na década de 1970, tivemos três grandes conflitos que levaram a graves crises no setor: a Guerra do Yom Kippur, a Revolução Iraniana e a Guerra Irã-Iraque. Esses conflitos provocaram grandes mudanças no setor energético mundial, em especial no Brasil, que, na época da Guerra do Yom Kippur, importava cerca de 80% do petróleo consumido internamente.
Já em 2026, com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo exército iraniano, estamos enfrentando o que tem grandes chances de ser a maior crise energética da história mundial. Entretanto, a situação atual do Brasil perante essa ameaça é muito mais favorável do que o cenário enfrentado em 1970, pois hoje o país é o oitavo maior exportador de petróleo do mundo e o maior da América Latina, segundo dados da AIE, importando apenas 12,4% de produtos petrolíferos.
É fato que o Brasil trabalhou muito para garantir maior autossuficiência no setor energético a fim de minimizar os impactos gerados por crises futuras entre os maiores produtores de óleo e gás do planeta. Todas essas crises deram ao Estado a oportunidade de desenvolver estratégias diplomáticas, políticas internas e novas tecnologias que trouxeram grande progresso para o país.
Durante as crises de 1970, o Brasil adotou uma política multilateralista e pragmática, buscando o diálogo e a aproximação com países do Oriente Médio para minimizar os efeitos que conflitos regionais pudessem gerar ao Estado. Além disso, estabeleceu políticas importantes para o desenvolvimento do setor no país, a criação do Pró-Álcool (Programa Nacional do Álcool) é um grande exemplo de medida de sucesso da época, pois incentivava a produção e o consumo do etanol, biocombustível gerado a partir da cana-de-açúcar, como alternativa à gasolina. Em 2024, pudemos observar os efeitos que essa política teve no país, pois 33% do total de suplementação de energia no Brasil são provenientes de biocombustíveis, segundo a AIE.
O país aprendeu bastante com as dificuldades passadas e, em 1975, assinou um acordo que previa a transferência de tecnologia e a construção de oito reatores nucleares com a Alemanha Ocidental, na intenção de produzir e utilizar energia nuclear para a diversificação de sua matriz energética. Atualmente, existem duas usinas no país, herança desse acordo firmado para evitar o cenário causado pelos embargos de petróleo da OPEP durante a Guerra do Yom Kippur.
Ao longo da história política do Brasil pós-Segunda Guerra Mundial, observamos que o multilateralismo e o pragmatismo são algumas das estratégias políticas mais utilizadas na tentativa de blindar o país de grandes crises energéticas, principalmente as provenientes de países localizados no Oriente Médio. Manter o diálogo e as relações diplomáticas com os grandes produtores de petróleo é muito importante para o desenvolvimento do país, mas a busca por alternativas a esse recurso está se mostrando cada vez mais necessária.
O Brasil possui mais de 47% da matriz energética primária proveniente de fontes renováveis e é o oitavo maior exportador de petróleo do mundo, mas conflitos na região dos países-membros da OPEP+ ainda causam certo impacto na economia nacional. Com a ameaça da maior crise energética do mundo, causada pelo conflito armado entre Israel, Estados Unidos e Irã, o preço do petróleo apresentou grandes altas, motivado por ataques contínuos à infraestrutura energética na região do conflito. Para minimizar os impactos na economia e aproveitar o fato de o Brasil ser um dos países que compensou ganhos em meio a essa crise, o governo retirou impostos federais e usou as altas para conter os preços no país, impedindo o aumento a curto prazo de alimentos, energia e gasolina.
A postura multilateral e pragmática consolidada na década de 1970 provou ser mais do que uma tradição diplomática, tornou-se uma estratégia de sobrevivência econômica do Estado brasileiro. Ao equilibrar a diplomacia com o incentivo às fontes alternativas ao petróleo, o Brasil construiu resiliência frente às crises energéticas globais. Entretanto, minimizar os impactos de curto prazo com a redução ou isenção de impostos serve apenas para adiar as consequências desses conflitos. A verdadeira soberania energética brasileira nos próximos anos dependerá da capacidade de transformar o favoritismo atual de sua matriz energética renovável em uma imunidade definitiva contra as oscilações do mercado internacional de energia.
A verdadeira soberania energética brasileira nos próximos anos dependerá da capacidade de transformar o favoritismo atual de sua matriz energética renovável em uma imunidade definitiva contra as oscilações do mercado internacional de energia.


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