artigo de opinião escrito por Laiane Mendes Pinto
Desde a Revolução Industrial, os combustíveis fósseis sustentaram o desenvolvimento econômico mundial. Porém, a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, reforçar a segurança energética e diversificar a matriz elétrica acelerou a transição para fontes renováveis. Hoje, não basta ampliar a geração de energia limpa; é preciso garantir que essa energia esteja disponível quando houver demanda.
O Brasil ocupa uma posição privilegiada nesse cenário. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, aproximadamente 86,8% da eletricidade gerada no país vem de fontes renováveis. Esse dado demonstra o avanço da matriz elétrica brasileira, mas também evidencia um novo desafio: como aproveitar melhor a energia produzida em um sistema com participação crescente de fontes renováveis variáveis?
Ao mesmo tempo, vivemos no Brasil a expansão da mobilidade elétrica e levanta outra questão igualmente importante: o que fazer com as baterias quando elas deixarem de atender às exigências dos veículos elétricos?
Curiosamente, acredito que essas duas discussões podem estar mais conectadas do que parecem.
Embora deixem de oferecer o desempenho necessário para a mobilidade, muitas baterias ainda conservam entre 70% e 80% de sua capacidade original, podendo permanecer em operação por vários anos em aplicações estacionárias. Antes de serem recicladas, essas baterias ainda podem armazenar energia, prestar serviços à rede elétrica e continuar gerando valor.
Antes de serem recicladas, essas baterias ainda podem armazenar energia, prestar serviços à rede elétrica e continuar gerando valor.
No Brasil, essa discussão começou a avançar com o Projeto de Lei nº 2.132/2025, que propõe a criação da Política Nacional de Circularidade das Baterias, estabelecendo diretrizes para logística reversa, reutilização, remanufatura, reciclagem, rastreabilidade e responsabilidade compartilhada. Considero essa iniciativa um passo importante, pois reconhece que esses equipamentos podem continuar contribuindo para a sociedade mesmo após o encerramento de sua primeira aplicação.
Entretanto, na minha visão, limitar esse debate à economia circular significa deixar de explorar uma oportunidade estratégica para o setor elétrico. A transição energética não significa substituir uma fonte de energia por outra, mas construir um sistema energético mais eficiente, resiliente e capaz de integrar diferentes tecnologias. É justamente nesse contexto que as baterias de segunda vida deixam de ser apenas um passivo ambiental e passam a representar um ativo estratégico para o futuro energético do país.
Essa reflexão torna-se ainda mais relevante diante da expansão das fontes solar e eólica. Como essas tecnologias dependem das condições climáticas, nem sempre a produção de energia coincide com os momentos de maior consumo. Soluções de armazenamento permitem aumentar a flexibilidade do sistema elétrico, armazenando parte da energia produzida nos períodos de maior geração para utilizá-la quando necessário.
Essa necessidade é ainda mais evidente no Nordeste brasileiro. A região concentra alguns dos maiores parques eólicos e solares do país e tem desempenhado papel fundamental na expansão das energias renováveis. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados ao escoamento e ao aproveitamento dessa geração, tornando o armazenamento uma alternativa importante para aumentar a eficiência da infraestrutura já instalada e reduzir perdas de oportunidades de uso da energia produzida.
Essa estratégia já deixou de ser apenas uma possibilidade teórica. Nos Estados Unidos, a empresa B2U Storage Solutions opera um projeto comercial em Lancaster, Califórnia, que reutiliza aproximadamente 1.300 baterias de veículos elétricos para formar um sistema de armazenamento, prestando serviços à rede elétrica demonstrando que essa solução é técnica e economicamente viável em escala comercial.
Essas experiências mostram que o desafio já não está em provar que a tecnologia funciona, mas em criar as condições para que ela seja adotada em larga escala. No Brasil, isso envolve estabelecer critérios para avaliação da vida útil remanescente das baterias, desenvolver normas de segurança, aperfeiçoar a regulamentação e criar modelos de negócio que incentivem sua utilização no setor elétrico.
Mais do que decidir como reaproveitar essas baterias, acredito que o Brasil precisa discutir onde elas podem gerar maior valor para a sociedade. Em um país que já possui uma matriz elétrica predominantemente renovável, enxergá-las apenas como uma solução ambiental é limitar seu potencial. Integradas ao planejamento energético, as baterias de segunda vida podem contribuir para aumentar a flexibilidade do sistema elétrico, ampliar o aproveitamento da energia renovável e fortalecer a segurança energética.
Talvez a pergunta mais importante já não seja o que fazer com essas baterias quando elas deixarem os veículos elétricos, mas como utilizá-las para construir um sistema energético mais eficiente, resiliente e preparado para os desafios da transição energética.
Referências
Balanço Energético Nacional 2026 (EPE); Senado Federal, matéria 168417 (PL 2.132/2025); arxiv.org/abs/2003.03216; ONS – FAQ curtailment; EPE – PDE 2034; B2U Storage Solutions (b2uco.com/about).


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