artigo de opinião escrito por Maria Luiza Agostinho da Fonseca
Todos comemoram a transição energética como a salvação do planeta. Mas será que essa transformação é realmente tão simples?
A descarbonização das matrizes energéticas é uma das estratégias para diminuir as emissões de gases de efeito estufa e responder aos desafios ambientais, sem romper com a lógica de funcionamento do sistema econômico capitalista (Nascimento; Leite, 2025). O que raramente entra no debate é se todos ficarão com os ganhos dessa transformação.
Não se trata apenas de uma agenda ambiental; a transição energética passou a ser uma contenda internacional pelo domínio econômico, tecnológico e geopolítico.
Quem controla, lidera
Energia sempre foi uma questão de poder. Quem controla a tecnologia, a infraestrutura, o financiamento, os minerais críticos e as cadeias industriais também controla parte importante da economia mundial. Por isso, os Estados buscam controlar áreas estratégicas para instalar parques de energia, explorar recursos naturais e participar dessa nova economia.
A energia não pode ser considerada como uma mera questão técnica, mas também como uma dimensão central das disputas pelo poder e formação das sociedades (AEPET TV, 2020). Por mais que o discurso ambiental ocupe o centro das discussões, a transição energética também reorganiza relações de poder. É nessa competição internacional por influência que os investimentos chineses no Nordeste estão assumindo relevância.
O caso do Nordeste
No período de 2007 a 2025, o levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apresentou que empresas chinesas investiram US$85 bilhões no Brasil. Isso só mostra que a China já enxerga a transição energética como uma disputa pelo domínio de novos mercados e não apenas como uma agenda climática. Em 2019, a região Nordeste assumiu pela primeira vez a liderança na distribuição regional dos projetos chineses; em 2025 sete dos nove estados nordestinos receberam investimentos da China (CEBC, 2025). A grande oferta de recursos eólicos e solares justifica-se em boa parte porque essa região se tornou estratégica na ampliação dos investimentos chineses.
Segundo a International Renewable Energy Agency (IRENA, 2026), em episódio do podcast All Things Renewable, a transição energética não possui apenas um único caminho. Cada país constrói sua estratégia de acordo com seus recursos, objetivos econômicos e necessidades energéticas. Nesse cenário, os fluxos de investimento e as escolhas políticas são elementos essenciais para definir como cada nação irá conduzir essa mudança.
O Brasil parte de uma posição vantajosa. Como indica a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), as fontes renováveis correspondem a cerca de 50% da matriz energética brasileira e a 86,8% da matriz elétrica nacional. Isso significa que o Brasil possui uma vantagem competitiva rara no cenário internacional, mas essa vantagem, por si só, não assegura benefícios. O aproveitamento dessa vantagem depende de políticas industriais, inovação e agregação de valor. Principalmente, porque a descarbonização ainda continua sendo um grande desafio.
O verdadeiro desafio brasileiro
Hoje, o desafio do Brasil não é impedir a entrada do capital estrangeiro; é garantir que esses investimentos também gerem desenvolvimento interno. Isso merece atenção porque a entrada de grandes investimentos estrangeiros pode trazer benefícios como novas tecnologias, empregos e expandir a capacidade energética. Por outro lado, também pode gerar novos desafios, como dependência tecnológica, concentração econômica e impactos socioambientais.
Hoje, o desafio do Brasil não é impedir a entrada do capital estrangeiro; é garantir que esses investimentos também gerem desenvolvimento interno.
A forma como esses investimentos são negociados, portanto, pode definir se a transição energética irá fortalecer a autonomia brasileira ou aprofundar relações de dependência; a questão nunca foi sobre se o investimento estrangeiro deveria existir ou não.
Um parque de energia renovável instalado no Nordeste gera eletricidade e empregos, mas a pergunta que permanece é quem captura o maior valor dessa transformação? É o país que fornece o espaço e os recursos naturais? Ou aquele que domina a tecnologia, o financiamento e a cadeia produtiva?
Como afirma o cientista político Felipe Quintas em entrevista à AEPET TV (2020), energia é a capacidade de realizar trabalho, e o trabalho constitui a base da produção de riqueza e da organização das sociedades.
Assim, controlar a energia significa influenciar não apenas o desenvolvimento econômico, mas também a capacidade de produzir riqueza e exercer poder. E é justamente por isso que a disputa em torno da transição energética não envolve apenas a expansão de fontes renováveis, mas também o controle dos recursos, das tecnologias e das cadeias produtivas que sustentarão a economia do futuro. Esse me parece ser hoje um dos principais desafios do Brasil.
Sem dúvida, produzir energia limpa será apenas uma parte da disputa. O que realmente fará diferença será a capacidade de transformar essa energia em oportunidade de desenvolvimento nacional. Afinal, essa transformação está longe de ser simples.
Referências
- AEPET TV. Segurança energética é inegociável e cabe ao Estado zelar por ela. YouTube, 7 abr. 2020.
- CONSELHO EMPRESARIAL CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA (CEBC). Investimentos chineses no Brasil 2025: mineração, mobilidade elétrica e renováveis . Rio de Janeiro: CEBC, 2026.
- CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL CHINA (CEBC). Investimentos chineses no Brasil 2024: reindustrialização e transição energética. Rio de Janeiro: CEBC, 2025.
- EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Matriz energética e elétrica. ABCDEnergia. Rio de Janeiro: EPE, [s.d.].
- INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY (IRENA). Local Pathways, Global Energy Transition: Turning Local Strengths into Global Progress. All Things Renewable. [S. l.]: IRENA, 23 jul. 2026. Podcast. Entrevistado: Binu Parthan.
- NASCIMENTO, Monalisa Lustosa; LEITE, Alexandre Cesar Cunha. Entre torres eólicas e fazendas solares: a presença do capital chinês na transição energética na região Nordeste do Brasil. Geosul, Florianópolis, v. 40, n. 92, p. 67-98, jan./abr. 2025.


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