Do laboratório ao financiamento: o desafio do hidrogênio brasileiro

08 ago, 2026

Luiz Miranda

artigo de opinião escrito por Daniel Guimarães de Arruda

O hidrogênio não é tecnologia do futuro. O mundo já produz cerca de 100 milhões de toneladas de hidrogênio por ano, e aproximadamente 98% desse total vem de rotas fósseis sem captura, emitindo cerca de 10 kg de CO2, para cada quilo de H2 (DNV, Energy Transition Outlook 2026). O hidrogênio já existe, já é usado em refino, fertilizantes e química, porém hoje sua produção é um passivo climático e descarbonizá-la é uma das maiores oportunidades de mitigação disponíveis no planeta. O tema voltou ao centro do debate porque a eletrificação resolve quase tudo, menos em nichos nos quais o elétron não substitui a molécula, como amônia, metanol, aço, navegação e aviação.

E esqueça a lista de cores (cinza, azul, verde, rosa). Nenhum banco financia cor, mas se a pegada de carbono é verificável e rastreável. O limiar europeu, por exemplo, é de 3,38kg de CO2 por Kg de H2. A métrica é emissão, não rota. Como observa a própria DNV, organização internacional especializada em certificação e gestão de riscos – aponta “a indústria está se afastando dos rótulos de cor em favor de uma definição por intensidade de carbono mensurável”.

REFORMA A SECO DO BIOGÁS: OPORTUNIDADE A VISTA

Reforma, na química, significa quebrar uma molécula para extrair o hidrogênio nela contido. A convencional, usada em indústrias, usa gás natural e vapor d’água e gera CO2. A reforma a seco, por sua vez, substitui a água usada no processo pelo próprio CO2. O produto é, portanto gás de síntese (CO2 e H2), insumo para industrias de fertilizantes, e combustíveis sintéticos. Repare: a reforma a seco consome dois gases de efeito estufa (CH4 e CO2) no processo, convertendo esses componentes em Hidrogênio. Além disso, o biogás apresenta essa composição (cerca de 55 a 75% de metano e 25 a 44% de CO2). Como o carbono vem de fonte biogênica, o hidrogênio produzido nasce com baixa emissão de carbono.

A base material existe e cresce no Brasi. Segundo o Panorama do Biogás no Brasil 2025 (CIBIogás), o país fechou 2025 com 1803 plantas cadastradas e produção de 4,96 bilhões de Nm3/ano, alta de 6% sobre 2024. O potencial estimado é de 30 bilhões de m3/ano, superior aos cerca de 20 bilhões de diesel importados por ano. O Paraná está entre os estados lideres, com aproximadamente 1,5 milhão de Nm3/dia.

O gargalo técnico é a desativação do catalisador usado no processo – problema que a literatura nacional ataca há duas décadas com pesquisa e inovação. O desafio remanescente reside em operar uma planta de forma estável por dezenas de milhares de horas com biogás real.

BANKABILITY, OU ONDE OS PROJETOS PARAM

Bankability é o grau em que o projeto é financiável por um banco. Muito usado como indicador do grau em que um projeto é creditável por financiadores. Segundo o IEA, apenas 6% da produção de hidrogênio limpo anunciada no mundo chegou à decisão de investimento. E 60% seguem em estágio inicial. Porém a pergunta que mais impacta: Por que não saem do papel?

Aqui vem a parte contraintuitiva para quem é da engenharia. Quando o Banco Mundial questiona aos financiadores o que mais os assusta, a resposta sempre é o risco de não ter comprador garantido, seguido do risco regulatório. Risco tecnológico configura entre os últimos. Os gargalos estão acima da camada tecnológica. É resolver a exigência de maturidade e estabilidade ao longo prazo.

O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo (cerca 86,5% renovável), bem como demanda doméstica cativa, uma vez que importamos a maior parte da amônia consumida. Nada disso basta. Vantagens em recursos naturais não vira vantagem industrial. O maior risco é de virarmos exportadores de moléculas baratas, feitas com eletrolisadores importados e capital estrangeiro, para agregar valor fora do país.

E o relógio corre. A regulamentação de acesso no Brasil segue pendente. E o risco regulatório é o segundo maior medo dos financiadores. Um país, como o Brasil, que anuncia R$ 18,3 bilhões e demora dois anos para explicar como acessá-los não está so atrasando projetos, mas também produzindo um risco que precisa eliminar. E a IEA afirma: quem não decidir investir até o início de 2026 não opera antes de 2030.

PERSPECTIVA BRASILEIRA

Se o gargalo é a maturidade tecnológica, a resposta é infraestrutura capaz de gera-la. Nesse sentido, o Centro de Competência em Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono da EMBRAPII na UFPR, anunciado em junho de 2026, com R$ 60 milhões do FNDCT foi estruturado nessa direção. Apoiado em amis de 15 anos de pesquisa, não é apenas um programa industrial, mas um programa com estrutura em escala: plantas-piloto como ambientes de inovação, para testar, demonstrar, e escalar tecnologias, reduzindo risco e acelerando a maturidade tecnológica (MCTI, 2026)

Traduzindo: é uma oportunidade de subir o TRL, e gerar horas de operação – os dois indicadores que a matriz de risco do OIES lista como pré-requisitos de financiamento. Assim, a liderança brasileira dependerá de converter competência científica, estruturar a demanda doméstica e financiar rotas nas quais o país tem vantagem real.

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