artigo de opinião escrito por Yuri Moura
O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma narrativa sólida de protagonismo no setor energético. Uma matriz majoritariamente renovável, forte presença hidrelétrica e expansão consistente de fontes como eólica e solar colocam o país em posição privilegiada no debate global sobre transição energética.
Mas existe um desalinhamento importante entre essa narrativa e a realidade operacional, principalmente quando o tema é eficiência energética.
A discussão pública ainda está muito concentrada na expansão da oferta. Novos empreendimentos, crescimento da capacidade instalada e diversificação da matriz seguem no centro das decisões. No entanto, os próprios estudos da EPE e diretrizes do MME já apontam há algum tempo que o avanço sustentável do setor elétrico brasileiro depende, em grande medida, do lado do consumo.
A indústria, responsável por uma parcela relevante da demanda energética do país, é um dos principais vetores dessa transformação. E não apenas pelo volume que consome, mas pelo potencial de otimização ainda não explorado.
Existe, hoje, um espaço claro para ganhos expressivos de eficiência dentro do parque industrial brasileiro. Esse potencial passa por modernização de equipamentos, eletrificação de processos, gestão energética mais sofisticada e integração com tecnologias digitais. Em muitos casos, não se trata de inovação de fronteira, mas de aplicação estruturada de soluções já disponíveis.
O ponto central é que essa transformação não tem avançado na velocidade necessária.
Parte disso está associada a questões conhecidas, como restrições de investimento, priorização de CAPEX produtivo e ausência de mecanismos mais robustos de incentivo. Mas existe um fator menos discutido e que tem se mostrado cada vez mais relevante, a limitação de capital humano especializado.
A transição energética, especialmente sob a ótica da eficiência, exige um perfil profissional que ainda é escasso no mercado brasileiro. Não basta o conhecimento técnico tradicional. É necessário compreender a energia como variável estratégica do negócio, conectando consumo energético a custo, produtividade e competitividade.
Isso implica dominar não apenas engenharia, mas também análise econômica, gestão de ativos e, cada vez mais, ferramentas digitais aplicadas à energia.
Na prática, o que se observa é um descompasso. De um lado, um volume crescente de oportunidades de projetos com retorno financeiro claro. De outro, dificuldade em estruturar, executar e sustentar essas iniciativas.
Esse gap tem impacto direto na competitividade da indústria brasileira. Em um cenário global onde eficiência energética já é tratada como elemento central de estratégia industrial, operar com baixa maturidade nesse tema significa produzir com custo maior e menor capacidade de adaptação.
Além disso, há um efeito sistêmico. A não captura de ganhos de eficiência pressiona a expansão da oferta, aumenta a necessidade de investimentos em geração e infraestrutura e reduz a eficiência global do sistema elétrico.
Ou seja, eficiência energética não é apenas uma agenda ambiental ou operacional. É uma questão estrutural para o desenvolvimento econômico.
O Brasil tem condições técnicas, base energética e experiência acumulada para avançar de forma consistente nessa agenda. Mas isso exige uma mudança de abordagem.
Mais do que ampliar a capacidade instalada, será necessário aumentar a capacidade de execução.
E isso passa, inevitavelmente, por formação, qualificação e valorização de profissionais capazes de atuar na interface entre energia e indústria.
Sem esse movimento, o país corre o risco de manter uma posição confortável na teoria, mas limitada na prática.
A transição energética brasileira não será definida apenas pela forma como geramos energia, mas principalmente pela forma como a utilizamos.
E, hoje, esse ainda é o nosso principal desafio.


Respostas