artigo de opinião escrito por Ana Carolina Cordeiro Kaluzn
Quando ligamos a luz, tomamos um banho quente ou carregamos o celular, raramente pensamos no longo percurso físico que a energia fez até chegar ali. No debate público atual, a transição energética é frequentemente tratada como uma simples troca de interruptor: basta desligar as usinas movidas a combustíveis fósseis e ligar os painéis solares e as turbinas eólicas espalhadas pelo país. É uma ideia bonita e fácil de vender, mas a realidade técnica dos bastidores é infinitamente mais complexa. Mudar a matriz elétrica inteira de um país continental sem colapsar o sistema é o equivalente a tentar trocar o motor de um carro enquanto ele viaja a 100 quilômetros por hora em uma rodovia.
Um documento recente e muito cirúrgico, o Position Paper da Academia Nacional de Engenharia (ANE) o “Desafios da Transição Energética”, tocou no ponto central que a empolgação com o futuro verde muitas vezes mascara: a natureza não obedece a cronogramas humanos. O sol não brilha sob demanda durante a noite e os ventos mudam de direção e intensidade ao longo do dia. Se injetarmos gigawatts de parques solares e eólicos na rede sem preparar a nossa infraestrutura física para lidar com essas variações constantes, o sistema inteiro entra em colapso. A sustentabilidade perde totalmente o sentido se a rede elétrica não tiver estabilidade.
A questão geográfica agrava esse desafio. Gerar energia no interior do Nordeste e fazer com que ela abasteça um polo industrial no Sul ou ilumine os lares no Sudeste não é mágica, é infraestrutura pesada. Qualquer viagem mais longa, seja descendo a serra em direção ao litoral paranaense ou cortando as rodovias do estado, revela quilômetros e quilômetros de cabos, subestações e torres de transmissão gigantescas que sustentam o nosso desenvolvimento. Se construirmos usinas de geração limpa sem reforçar paralelamente às linhas de transmissão e os sistemas de armazenamento (como as baterias de grande escala), a energia simplesmente fica “presa”. O documento da ANE alerta, com precisão técnica, que essa falta de sincronia entre a geração e a capacidade de transmissão esconde custos altíssimos.
É exatamente aqui que a gestão da operação e a engenharia de base entram em cena, e onde o discurso encontra a realidade. No meu dia a dia estudando a fundo a gestão de ativos, a confiabilidade e as rotinas reais do chão de fábrica, aprendi uma regra universal: na engenharia de precisão, não existe espaço para o “achismo”. Na indústria da manufatura, utilizamos metodologias e certificações rigorosas de qualidade, como o PPAP (Processo de Aprovação de Peças de Produção), para garantir que um equipamento não apresente falhas imprevisíveis e cause a parada de uma linha inteira de montagem. O nosso setor elétrico precisa abraçar urgentemente essa mesma “obsessão” pelo zero defeito.
Na prática, uma grande linha de transmissão ou uma subestação não é tão diferente do maquinário complexo de uma fábrica. Se a manutenção preventiva falha, se a gestão do ativo é negligenciada ou se um componente não é validado com rigor extremo de qualidade, o equipamento cai. E quando a rede elétrica cai, o prejuízo não é apenas de uma empresa de energia; o prejuízo paralisa hospitais, escolas, semáforos e milhares de negócios de pequeno e grande porte. A gestão de ativos deixa de ser um jargão burocrático de escritório para se tornar o verdadeiro coração da segurança nacional. Garantir o ciclo de vida, a durabilidade e a saúde de cada transformador e de cada cabo é o que viabiliza a entrada segura de fontes limpas no sistema.
Essa previsibilidade do sistema também é desenhada antes mesmo da primeira torre ser erguida. O futuro sustentável começa nas pranchetas de projeto e nos softwares avançados de modelagem 3D, garantindo que toda a infraestrutura seja detalhada e compatibilizada com precisão. Projetos bem estruturados visualmente evitam desperdícios de materiais no canteiro de obras, previnem retrabalhos e garantem que a execução ocorra dentro da verba.
Além do desafio puramente técnico e estrutural, a ANE destaca a ferida econômica. O setor elétrico vive o que chamamos de “trilema”: a energia precisa ser sustentável, confiável e barata. Se a confiabilidade do sistema despenca devido à intermitência, o Operador Nacional do Sistema (ONS) é forçado a acionar usinas térmicas de emergência, que queimam combustíveis e são extremamente caras, apenas para equilibrar a rede e evitar apagões. No fim do mês, quem paga essa conta salgada (destruindo o princípio da modicidade tarifária) é o cidadão comum, o trabalhador e o pequeno empresário.
A ineficiência técnica pune, sem piedade, o bolso da sociedade.
Contudo, a engenharia não vive apenas de construir o novo; ela precisa salvar e otimizar o que já existe. É nesse cenário que o retrofit (a modernização inteligente das instalações legadas) ganha protagonismo absoluto. O documento da ANE é taxativo ao demonstrar que não podemos simplesmente descartar a infraestrutura atual para começar do zero. Em vez disso, precisamos aplicar a gestão de ativos para atualizar subestações e linhas de transmissão que operam há décadas. Substituir componentes obsoletos, instalar sensores de monitoramento preditivo e elevar a capacidade de transmissão de torres antigas custa uma fração do tempo e do dinheiro de uma obra nova.
Mas essa necessária modernização traz à tona um novo calcanhar de Aquiles: a segurança cibernética. À medida que atualizamos nossos equipamentos e transformamos nossa infraestrutura em redes inteligentes (smart grids), a confiabilidade deixa de ser uma questão puramente física e passa a ser digital. O Position Paper da ANE faz um alerta contundente sobre as vulnerabilidades do nosso sistema interligado frente a possíveis ataques de hackers. De nada adianta aplicarmos o rigor de um PPAP na fabricação de um transformador se o software que o opera remotamente puder ser sequestrado ou desligado a milhares de quilômetros de distância. Na indústria moderna, uma falha cibernética não rouba apenas planilhas ou dados; ela paralisa turbinas, desativa subestações e apaga cidades inteiras. Hoje, a cibersegurança deixou de ser um problema exclusivo do departamento de TI para se tornar a nova e mais crítica fronteira da engenharia de manutenção.
Pensar no setor de energia das próximas décadas exige colocar os pés firmemente no chão. Os novos profissionais e as futuras lideranças, não podem ser apenas entusiastas das causas ambientais; precisam ser os fiadores da estabilidade técnica. O verdadeiro líder do setor energético de amanhã é aquele que entende as métricas financeiras, mas que não tem medo de colocar as botinas e acompanhar de perto o rigor dos projetos, a gestão de qualidade das peças e a manutenção diária de cada ativo. Afinal, a energia mais sustentável não é apenas aquela que preserva o meio ambiente; é aquela que tem a confiabilidade de acender a luz todas as vezes que precisamos dela.


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