artigo de opinião escrito por Mateus Modena Neves
Ao longo dos últimos séculos, novas tecnologias impulsionaram a evolução da humanidade, trazendo mudanças radicais na forma como nos relacionamos, vivemos e pensamos. No século XVI surgiu a prensa móvel, que viabilizou a impressão de livros e textos em larga escala e permitiu a disseminação do conhecimento. Já no século XIX, surgiu o motor a vapor, chave para a primeira revolução industrial, permitindo a produção em série e acarretando o êxodo rural, pois muitas famílias decidiram deixar o campo para as cidades onde as indústrias estavam localizadas. Ainda nesse século, ocorreu o uso da eletricidade como fonte de energia, tornando-a indispensável para a sociedade até os dias atuais. Surgiram também os primeiros telefones, que revolucionaram as comunicações em longas distâncias. No século XX, veio o advento da internet, que continua transformando o mundo em que vivemos. Agora, uma nova tecnologia promete repetir esse ciclo e com uma velocidade sem precedentes. [1]
Cada uma dessas tecnologias teve impacto substancial na nossa forma de viver e influenciou em outras inovações. Como toda tecnologia disruptiva, houve um período de adoção para cada uma delas, durante o qual a sociedade foi aprendendo a conviver e incorporá-las ao cotidiano. Atualmente, estamos na era da inteligência artificial, que apresenta um ritmo de adoção extremamente acelerado, superando a velocidade de todas as tecnologias mencionadas anteriormente [2]. Essa velocidade gera uma demanda acelerada e gigantesca por infraestrutura para suportar o crescente volume de processamento de dados, o que significa mais datacenters e toda a estrutura necessária para sua operação, acomodando centros de processamento, sistemas robustos de refrigeração, redes de comunicação e energia.
Atualmente, entre 10 e 20% da população brasileira faz uso da inteligência artificial em seu dia a dia [2]. Isso significa que ainda há um espaço muito grande para o crescimento dessa tecnologia ao longo dos próximos anos e, ao que a taxa de adoção indica, será um crescimento acelerado. A dúvida que fica é: a infraestrutura física conseguirá acompanhar esse ritmo para suportar a expansão da tecnologia? Estamos falando de infraestruturas gigantescas de datacenters, linhas de transmissão e fontes de geração de energia, além de todo o planejamento para integrar esses empreendimentos ao sistema elétrico de forma segura, sem gerar riscos ao fornecimento para o restante da sociedade.
Quando observamos os prazos de implementação da infraestrutura necessária para a operação de um datacenter, percebemos uma discrepância significativa entre a velocidade de construção do datacenter em si e a da infraestrutura elétrica necessária para suportá-lo. Um datacenter leva, em média, de 12 a 24 meses para ser construído [5], enquanto uma linha de transmissão pode levar de 48 a 60 meses. Isso significa que os reforços necessários para que a rede suporte a carga adicional serão o principal gargalo para esse tipo de empreendimento.
Colocando em números, o datacenter do TikTok em construção no Ceará consumirá 5.040 MWh em uma operação de 24 horas, o equivalente a uma demanda média contínua de 210 MW. Em outras palavras, um único datacenter consumirá mais energia do que cidades inteiras. E não estamos falando de cidades pequenas, ele consumirá mais energia do que 99,9% dos municípios brasileiros, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília [3].
Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, espera-se um acréscimo total de 13,4 GW de carga em função da conexão de novos datacenters até 2038 [4]. Isso equivale à adição de 65 datacenters do porte do empreendimento do TikTok no Ceará, o que resultará em um aumento substancial de carga no sistema e trará uma série de desafios para o setor elétrico brasileiro.
Os datacenters não são cargas tradicionais, representam uma demanda contínua, ininterrupta e concentrada geograficamente.
Esta nova demanda apresenta-se como uma grande oportunidade num momento em que o setor elétrico brasileiro é forçado a desperdiçar geração renovável, fenômeno conhecido como curtailment, porque o sistema de transmissão não consegue escoar toda a energia produzida. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, mas tem dificuldade de aproveitar todo o seu potencial em função das limitações do sistema de transmissão. Os datacenters poderiam instalar-se justamente nas regiões com abundância de fontes renováveis e limitação de escoamento, absorvendo esse excedente e fomentando o desenvolvimento local e novos investimentos em infraestrutura.
É evidente que a abordagem desse desafio deverá ser multidisciplinar. A localização de um datacenter não depende unicamente de energia, mas de uma combinação de fatores como disponibilidade de redes de comunicação, baixa latência, marco regulatório, prazo de conexão e segurança institucional. Não há tecnologia ou estratégia única capaz de acomodar essa expansão. Será necessário agir em várias frentes simultaneamente, revisar os prazos regulatórios de conexão à rede, criar incentivos de localização para datacenters em regiões com excedente de renováveis e modernizar os modelos de planejamento da EPE para incorporar essa nova categoria de carga.
O setor elétrico deve pensar de forma inovadora para garantir a inserção desses empreendimentos, capturar valor, atrair investimentos externos e crescimento econômico e, acima de tudo, garantir que seja possível aproveitar todo o potencial que o nosso país possui.
Referências
[1] https://www.coopersystem.com.br/5-tecnologias-marcantes-ao-longo-da-historia/
[5] https://blog.opendock.com/data-center-construction-timeline


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