A energia dos ventos também pode transformar territórios

A energia dos ventos também pode transformar territórios

02 out, 2026

Pedro Henrique Evangelista de Andrade

artigo de opinião escrito por Pedro Henrique Evangelista de Andrade

Quando criança, aprendi na escola que o vento era um elemento do clima ligado a paisagens e intempéries. Hoje, com olhar voltado à engenharia e ao setor elétrico, percebo que ele vai muito além: é sinônimo de desenvolvimento, inovação, planejamento territorial e oportunidades. O que antes era apenas um fenômeno da natureza passou a mover turbinas, gerar eletricidade e ocupar um papel estratégico na transição energética.

Quando pensamos em energia eólica, a imagem imediata costuma ser a de aerogeradores e suas pás em movimento, símbolo de uma fonte limpa e renovável. Ultimamente, porém, tenho pensado em outra comparação: a de um parque eólico com um aeroporto. Pode parecer incomum à primeira vista, mas ambos transformam profundamente os territórios onde são implantados.

Assim como aeroportos alteram a dinâmica das cidades, geram ruídos, modificam a paisagem, os parques eólicos também criam novas relações entre infraestrutura, natureza e comunidades. Há ainda outra semelhança: quando um avião sofre um acidente, a notícia rapidamente ganha repercussão nacional. O mesmo acontece quando ocorre uma falha envolvendo uma torre ou uma pá eólica. Felizmente, esses eventos não representam a rotina do setor. Assim como a aviação, a indústria eólica é baseada em elevados padrões de engenharia, monitoramento e segurança.

Apesar de ser fundamental para a descarbonização, nenhuma fonte possui impacto zero. A energia eólica apresenta baixas emissões na operação, mas sua cadeia envolve extração de matérias-primas, transporte, aberturas de estradas e, futuramente, o descomissionamento. Discutir energia exige responsabilidade ambiental e social.

Por isso, falar sobre energia eólica vai muito além da geração de eletricidade. Significa compreender como planejamento territorial, licenciamento ambiental, inovação tecnológica e diálogo com as comunidades podem caminhar juntos. Existe um velho dilema sobre quem veio primeiro: o ovo ou a galinha. No planejamento territorial, a resposta parece mais simples. Antes de qualquer empreendimento existem pessoas, histórias, modos de vida e um território que já possui sua própria dinâmica.

Segundo o Sistema de Informações de Geração (SIGA/ANEEL), o Brasil possui mais de 52 GW eólicos outorgados em 1.570 empreendimentos, com 35 GW em operação. O Nordeste lidera o setor com mais de 90% da capacidade nacional. Nesse sentido, os estados da Bahia (1º, 17,8 GW / 528 usinas), Rio Grande do Norte (2º, 12,8 GW / 375 usinas) e Piauí (3º, 5,7 GW / 152 usinas) lideram esse cenário nacional, enquanto Pernambuco ocupa o 6° lugar, com cerca de 1,62 GW de potência outorgada distribuídos em 59 empreendimentos. Desse total, aproximadamente 1,27 GW já estão em operação, evidenciando o potencial de expansão do estado e sua importância na diversificação da matriz elétrica brasileira.

Entretanto, bons ventos não bastam para definir a localização de um parque. É preciso analisar o uso do solo, identificar áreas sensíveis, definir áreas de influência e prever possíveis impactos locais. Nesse contexto, o licenciamento ambiental é o instrumento essencial que viabiliza o projeto de forma sustentável.

Recentemente, o Brasil passou a contar com a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025), que estabelece normas gerais para o procedimento em âmbito nacional. A nova legislação trouxe diretrizes importantes para o setor elétrico, ao assegurar, em seu Art. 10, procedimentos simplificados e prioridade na análise para empreendimentos estratégicos e de segurança energética nacional, ou seja, pilares centrais para a transição energética. Além disso, estabeleceu ritos mais céleres para infraestruturas essenciais, como as linhas de transmissão.

Em Pernambuco, essa legislação dialoga com normas estaduais específicas, como a Instrução Normativa da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) nº 09/2024, voltada aos empreendimentos de geração de energia a partir de fonte eólica, em superfície terrestre, e a IN CPRH nº 02/2026, que adequou os procedimentos administrativos do licenciamento ambiental estadual em função da Lei nº 15.190, de 08 de agosto de 2025.

Independente das mudanças legislativas, considero que o principal papel do licenciamento continua sendo o mesmo: conservar nossos biomas e seus serviços ecossistêmicos, reduzir riscos, orientar investimentos e prevenir conflitos socioambientais. Mais do que conferir celeridade aos processos, trata-se de um instrumento de planejamento que busca compatibilizar desenvolvimento econômico e proteção ambiental.

Quando falo em comunidade, não me refiro apenas às pessoas, mas pelo conjunto de espécies que compartilham um mesmo ambiente, interagindo entre si e com os fatores bióticos e abióticos. Essa visão dialoga diretamente com o amplo conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde humana, saúde animal e equilíbrio ambiental.

O estado de Pernambuco possui ferramentas que representam um importante avanço para o planejamento territorial.

Desenvolvida pela CPRH, a Plataforma Ecológico-Econômica de Pernambuco reúne um imenso banco de informações de interesse ambiental para guiar os licenciamentos e análises. Em sinergia com ela, a Plataforma Energética de Pernambuco, ferramenta pioneira, modernizou o antigo Atlas Eólico e Solar ao integrar camadas de dados georreferenciados (potencial eólico/solar, clima, redes elétricas, logística, topografia e restrições socioambientais, como terras indígenas, quilombolas e sítios arqueológicos). Juntas, essas plataformas oferecem inteligência territorial, agilidade e transparência ao processo. Ao integrar dados estratégicos, reduzem o tempo de análise e as incertezas do setor, permitindo identificar precocemente as áreas mais adequadas para novos empreendimentos e garantindo maior previsibilidade aos investimentos da transição energética.

Ainda assim, nenhuma plataforma substitui aquilo que acontece em campo.

Nenhum mapa consegue contar sozinho a história de uma comunidade, compreender sua relação com o território ou substituir o diálogo com quem vive naquele espaço. O licenciamento ambiental moderno deve garantir que essas populações tenham voz durante todo o processo, especialmente nas audiências públicas.

Nenhum mapa consegue contar sozinho a história de uma comunidade, compreender sua relação com o território ou substituir o diálogo com quem vive naquele espaço.

Da mesma forma, estudos sobre avifauna, mastofauna, com atenção especial aos morcegos, avaliação de ruídos, impactos cumulativos e sinérgicos e programas de comunicação social não devem ser vistos como obstáculos ao desenvolvimento. Pelo contrário. São mecanismos que fortalecem a segurança jurídica dos empreendimentos, reduzem conflitos e tornam a expansão da energia eólica mais sustentável.

Todo empreendimento transforma o território. O objetivo do planejamento ambiental não é impedir essas transformações, mas compreendê-las antecipadamente para que seus impactos possam ser evitados, minimizados ou compensados. Ou seja, uma forma de consultar a presença do projeto no ecossistema local.

Observar experiências bem-sucedidas em outras regiões é importante, mas nenhuma solução pode ser simplesmente reproduzida. Cada território possui características ambientais, culturais e sociais próprias, e quem melhor conhece essas dinâmicas são as pessoas que vivem nelas.

A tecnologia, os Sistemas de Informação Geográfica, as plataformas digitais e os avanços regulatórios oferecem ferramentas cada vez mais robustas para apoiar a tomada de decisão. Entretanto, acredito que a verdadeira inovação acontece quando essas tecnologias caminham ao lado da escuta, da transparência e do respeito às comunidades.

A energia dos ventos continuará impulsionando a transição energética brasileira. Mas sua expansão será tão sólida quanto nossa capacidade de integrar planejamento territorial, inteligência geoespacial, segurança jurídica, conservação ambiental e participação social.

Compartilhe:

Respostas

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fique por dentro!

Inscreva-se agora a nossa newsletter para ficar conectado!

Artigos mais lidos:

O Nordeste brasileiro produz riqueza e, junto com ela, desperdício em escala monumental. Em 2024, a região gerou aproximadamente 88,4 milhões de toneladas apenas entre as cinco principais culturas da

Milena da Cruz Souza

Em 2020, a Agência Internacional de Energia (IEA) projetava que o mundo poderia instalar até 150 GW de energia solar por ano até 2022, o cenário mais otimista representaria um

Sarah Caetano de Almeida

A energia eólica offshore chegou ao Brasil carregando uma promessa sedutora, a de gerar eletricidade limpa longe dos conflitos territoriais do continente. Mas há um problema nessa narrativa.

Felipe Júnio Sabino Sousa

Categorias

Vagas abertas:

No data was found
plugins premium WordPress

A TRANSFORMAÇÃO COMEÇA AQUI

Conectamos pessoas e empresas com o mercado de energia com diversidade e sustentabilidade.

Acesse nossa comunidade e faça parte!