artigo de opinião escrito por Daniel Pires
O sistema energético brasileiro passa por mais um momento de extrema complexidade e desafios recentemente. Para os analistas mais pessimistas, o cenário atual é o encerramento. O fim dos subsídios para energia incentivada mudou drasticamente os preços e margens daqueles que um dia conseguiam economias agressivas no Ambiente de Contratação Livre.
Como se já não bastasse, ainda temos o elevado preço da energia convencional e escassez da energia incentivada restante, criando uma percepção de que o mercado livre é algo que “morreu”. No entanto, quem atua diretamente no setor sabe que observar este cenário sob a ótica de commodity é um erro comum. O Mercado de energia incentivada realmente chegou ao fim para novos projetos, mas isso não inviabiliza todo o mercado livre; pelo contrário, força uma maturidade e organização necessária. O atual ano não deve ser visto como uma crise incontornável, mas como um período fundamental de preparação e construção de confiança.
É inegável que o atual momento impõe barreiras para novas migrações. Com a paridade de preços causada pela escassez de fontes incentivadas e valorização da convencional, o cliente que busca migrar com foco no desconto da energia, se encontra de frente para uma realidade financeira não tão atrativa. Contudo, essa estagnação abre porta para uma inteligência energética: gestão de portfólio.
Grande parte dos consumidores que hoje estão operando no mercado livre ou avaliam a migração enfrentam custos “invisíveis” e desnecessários como energia reativa excedente ou ultrapassagem de demanda. Fazendo um paralelo com uma pesquisa realizada pela empresa Luz, em parceria com Futuros possíveis, com 2.089 entrevistados, 62% dos entrevistados apostavam em uma mudança de hábito para adquirir economia na energia.
Dessa forma, é possível imaginar que esse comportamento, que na pesquisa foi feito com consumidores do mercado cativo, não teria um resultado tão diferente caso fosse refeito com consumidores do mercado livre. Empresas absorvem essas penalidades de demanda, reativo e outras, simplesmente por não terem uma assessoria técnica qualificada que analise suas faturas e formato de consumo de forma profunda. Somada ao cenário de altos preços, a opção mais vantajosa para o consumidor seria deixar a busca por menor preço do megawatt-hora e buscar uma gestão especializada.
O foco do mercado migrou da compra do insumo para eficiência operacional e inteligência de dados.
Para analisar o cenário atual, é preciso observar o cronograma de abertura de mercado baseado nas discussões regulatórias e diretrizes da Agência Nacional de Energia Elétrica. Estamos no limiar da transformação do setor elétrico nacional. A previsão aponta que novembro de 2027 terá a abertura de mercado para grupo de baixa tensão B3, com estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias de menor porte. Logo em seguida, em novembro de 2028, é a previsão da abertura total para o grupo B1, com consumidores residenciais em geral. Se a abertura geral está prevista para os próximos 2 anos, o período atual assume o papel crucial de análise e previsão estratégica.
Quem trata energia como mercadoria tem altas chances de perder dinheiro e relevância. No ambiente de contratação livre, o cliente busca adquirir não apenas a energia, já que ele já consome ela em sua rotina, mas tem foco na previsibilidade, blindagem contra volatilidade inflacionária e segurança. Por essa razão, esse é o momento crucial para investimento em networking, solidez das marcas e relacionamento de longo prazo. Período ideal para apresentar que a empresa é capaz de mitigar riscos de volatilidade de preços no curto prazo e evitar erros clássicos cometidos por distribuidoras.
Perante a complexidade de migração para o ambiente de contratação livre atual, a geração distribuída aparece como protagonista de crescimento para o período. Por conta das barreiras momentâneas de preço no mercado livre atual, a geração distribuída se apresenta como solução imediata de alívio financeiro para o consumidor de médio porte que deseja reduzir custos sem enfrentar a volatilidade atual do mercado livre.
Nessa etapa está o triunfo comercial para operadores do setor. Em vez de observar a geração distribuída e mercado livre como concorrentes excludentes, é necessário utilizá-los como etapas complementares de um mesmo ecossistema de relacionamento e fidelização. Oferecer uma solução de geração distribuída permite entregar uma economia imediata ao cliente, construindo uma fundação de confiança para os próximos passos.
O segredo estratégico consiste em desenhar contratos de geração distribuidora flexíveis, estruturados sem cláusulas de fidelidade ferozes e de longuíssimo prazo que limitem ou aprisionem o cliente. Dessa forma, assim que a volatilidade de preço reduzir e a abertura de mercado avançar, o operador terá liberdade consultiva e a lealdade do consumidor para migrá-lo rumo ao mercado livre de forma natural.
A demanda futura por energia livre será massiva e, sabendo com antecedência que o serviço de qualidade não estará disponível para todos de forma ilimitada, quem garantir o cliente através da confiança técnica hoje dominará o mercado amanhã. O ano apresenta contornos difíceis para atuais fechamentos de longo prazo, mas as estruturas e relações criadas agora definirão, sem dúvida, quem serão os líderes das próximas décadas do setor energético brasileiro.


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