O papel do biogás rural nos desafios da descentralização da matriz elétrica brasileira

O papel do biogás rural nos desafios da descentralização da matriz elétrica brasileira

02 out, 2026

Sabrina Christ

artigo de opinião escrito por Sabrina Christ

O biogás desponta como uma grande tendência global na atualidade. De acordo com dados da International Energy Agency, a IEA, a produção mundial de biogás e biometano tende a crescer 22% no período de 2025 a 2030. O Brasil, que é um grande produtor de alimentos, tem um enorme potencial de produção desse insumo, principalmente a partir de resíduos da agropecuária e da agroindústria. Estima-se que, em 2031, o potencial técnico nacional de produção de biogás supere os 97 bilhões de Nm³/a (EPE, 2023). Entretanto, conforme dados levantados pela CIBiogás, apenas 1,5% desse potencial técnico é aproveitado anualmente.

Dentro deste vasto cenário nacional, os dejetos animais assumem uma posição de destaque como matéria-prima. Tomando por exemplo a região Sul do país, um polo estratégico para o setor , a pecuária responde por 47% de todo o potencial de produção de biogás mapeado. Esse volume é composto principalmente pela suinocultura, que representa 30% da capacidade total, seguida pela avicultura (10%) e bovinocultura (7%). Essa alta disponibilidade de biomassa residual evidencia que os rejeitos agropecuários representam uma grande oportunidade para a expansão da matriz energética sustentável (ONUDI; CIBIOGÁS, 2020).

O biogás possui diversas aplicações, como a geração de energia elétrica, energia térmica, uso veicular e injeção nas redes de gás natural, sendo um pilar importante na redução do uso de insumos fósseis. Além disso, diferente de fontes intermitentes, ele é um combustível armazenável, permitindo um despacho controlável e configurando uma geração firme, sendo capaz de atender o sistema elétrico em horários de alta demanda. Ele pode ser consumido diretamente, contendo um poder calorífico de 4800 a 5100 kcal/m³, ou tratado para aproveitamento do biometano, chegando a um conteúdo energético similar ao do gás natural (ONUDI; CIBIOGÁS, 2020).

Ademais, o biogás apresenta-se como solução para o passivo ambiental que são os dejetos animais, sendo indispensável para o saneamento no campo. A intensificação dos Sistemas de Produção de Animais Confinados (SPACs) trouxe avanços significativos de escala para o setor, mas também gerou severos problemas ambientais devido à alta concentração da carga poluidora. O tratamento correto destes resíduos mitiga o risco de contaminação do solo e dos recursos hídricos, solucionando um problema crítico para as propriedades. Adicionalmente, a degradação anaeróbica do processo de geração do gás resulta na produção do digestato, um efluente que, diante do manejo correto, atua como um biofertilizante de alta qualidade. Quando aplicado, desenvolve nutrientes essenciais às lavouras e pastagens, consolidando a economia circular no agronegócio e reduzindo a dependência externa de fertilizantes químicos convencionais (KUNZ; OLIVEIRA, 2006).

Apesar do grande potencial produtivo, a conversão do biogás em eletricidade esbarra em um severo gargalo de infraestrutura. Projetos de minigeração distribuída, especialmente no ambiente rural, frequentemente lidam com redes de distribuição em finais de linha, nas quais garantir a estabilidade e manter a tensão fixada na carga já se apresenta como um desafio. Para efetivar a conexão do gerador, é necessário cumprir um rigoroso procedimento de acesso junto à concessionária local. Essa etapa exige a elaboração de estudos elétricos complexos, incluindo análises de curto-circuito, seletividade, coordenação e ilhamento. Em alguns casos, a partir dessas avaliações, as distribuidoras identificam a necessidade de execução de obras estruturais de reforço ou melhoria na rede elétrica para viabilizar a injeção da nova energia. Como os custos e os longos prazos atrelados a essas adequações costumam recair sobre o próprio empreendimento, a barreira elétrica torna-se, muitas vezes, o principal impeditivo financeiro para a expansão da tecnologia (ONUDI; CIBIOGÁS, 2020).

Superado o obstáculo da conexão elétrica, o produtor depara-se com um segundo desafio: a complexidade tecnológica e os altos custos de operação da planta. Um sistema de biodigestão atua como um reator biológico vivo, o biogás bruto gerado nesse processo carrega consigo certos contaminantes críticos, destacando-se a elevada umidade e o sulfeto de hidrogênio (H2S). O H2S possui características ácidas e efeitos nocivos e altamente corrosivos aos motores e periféricos, exigindo sistemas de purificação eficientes para garantir que sua concentração não ultrapasse o limite de 200 partes por milhão (ppm) estipulado pelos fabricantes. Ao mesmo tempo, a umidade inerente ao gás pode condensar nas linhas de transporte, o que restringe a vazão do combustível e potencializa os danos aos equipamentos (ONUDI; CIBIOGÁS, 2020).

Essa agressividade química do insumo reflete-se diretamente nas despesas de Operação e Manutenção (OPEX). Historicamente, diversas iniciativas de fomento ao biogás no Brasil fracassaram justamente pela ausência de condensadores de água e filtros para gases corrosivos, junto da baixa durabilidade de equipamentos que haviam sido improvisados para a queima do gás (KUNZ; OLIVEIRA, 2006).

Atualmente, embora o mercado disponha de tecnologias excelentes, manter a estabilidade e o funcionamento correto dos equipamentos demanda mão de obra qualificada e intervenções frequentes, resultando em um custo de OPEX que varia entre R$ 0,05 e R$ 0,07 por kWh gerado. Esse custo operacional constante, que muitas vezes não é calculado na fase de viabilidade, impacta diretamente a margem financeira do projeto (ONUDI; CIBIOGÁS, 2020).

Fica evidente que o biogás de dejetos animais é uma peça crucial para a modernização, descentralização e descarbonização da matriz elétrica brasileira. Transformar um grande passivo ambiental do agronegócio em geração firme e biofertilizantes de alta qualidade é uma oportunidade que o país não pode deixar passar. Porém, para que o campo acompanhe as projeções globais de crescimento, é urgente superar a dualidade entre o potencial teórico e a realidade prática. O avanço tecnológico dos biodigestores precisa ser contemplado por políticas públicas de modernização das redes de distribuição rurais, além de linhas de crédito e projetos que diminuam os altos custos de capital e operação.

Transformar um grande passivo ambiental do agronegócio em geração firme e biofertilizantes de alta qualidade é uma oportunidade que o país não pode deixar passar.

Somente com o fortalecimento dessa infraestrutura logística e financeira o Brasil deixará de tratar o biogás como uma possibilidade e passará a operá-lo como o pilar estratégico que ele de fato é.

Referências

  • Internacional Energy Agency. Renewables 2025: biogases. 2025.
  • Brasil. Empresa de Pesquisa Energética. Ministério de Minas e Energia. Potencial de biogás de resíduos no horizonte decenal. 2023.
  • Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial; Centro Internacional de Energias Renováveis. Aplicações do biogás para geração de energia elétrica. Brasília: MCTI, 2020.
  • Kunz, Airton; Oliveira, Paulo Armando V. de. Aproveitamento de dejetos de animais para geração de biogás. Revista de Política Agrícola, Concórdia, v. 3, n. 15, p. 28-35, set. 2006.

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