artigo de opinião escrito por Márcia Panzo
Quando falamos em transição energética, quase sempre pensamos em energia solar, parques eólicos, hidrogênio de baixo carbono e eletrificação. O debate é importante e necessário, mas me chama a atenção o silêncio em torno de outro tema que também faz parte dessa transformação: a gestão dos resíduos. Afinal, como falar em uso eficiente dos recursos enquanto milhões de toneladas de materiais com potencial energético continuam sendo destinadas aos aterros?
Na minha opinião, esse é um dos pontos cegos da estratégia energética brasileira. A transição energética não depende apenas da expansão de novas fontes de energia, mas também da capacidade de aproveitar melhor os recursos que já produzimos. Entre eles estão os resíduos que, por não apresentarem viabilidade técnica ou econômica para reciclagem, poderiam ser valorizados energeticamente em vez de simplesmente descartados.
A transição energética não depende apenas da expansão de novas fontes de energia, mas também da capacidade de aproveitar melhor os recursos que já produzimos.
Essa discussão costuma gerar um falso conflito. Sempre que se fala em recuperação energética, surge o argumento de que essa alternativa ameaça a reciclagem. Não concordo. A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece uma hierarquia clara: primeiro reduzir, reutilizar e reciclar; somente depois buscar outras formas de valorização. Portanto, a recuperação energética não deve substituir a reciclagem, mas complementar a gestão dos resíduos que já não podem retornar às cadeias produtivas.
Enquanto países europeus incorporaram essa estratégia às suas políticas de descarbonização, o Brasil ainda avança lentamente. O problema, ao meu ver, não é a falta de conhecimento técnico. Universidades, centros de pesquisa e empresas vêm desenvolvendo soluções para produzir combustíveis derivados de resíduos com qualidade suficiente para aplicações industriais. O desafio está em transformar esse conhecimento em políticas públicas, instrumentos regulatórios e investimentos capazes de ampliar sua utilização.
Não defendo que os resíduos sejam tratados como a solução para a transição energética. Eles não são. Mas também acredito que ignorar seu potencial significa deixar de aproveitar uma oportunidade real de reduzir o consumo de combustíveis fósseis, diminuir a disposição em aterros e fortalecer a economia circular. Uma transição energética consistente precisa considerar todas as alternativas tecnicamente viáveis, e não apenas aquelas que já ocupam espaço no debate público.
Talvez o maior desafio não seja encontrar novas fontes de energia. Talvez seja ampliar nossa forma de pensar a própria transição energética. Enquanto continuarmos discutindo energia e resíduos como temas separados, continuaremos desperdiçando oportunidades de construir um sistema energético mais eficiente, mais circular e mais sustentável.


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