artigo de opinião escrito por Milena da Cruz Souza
O Nordeste brasileiro produz riqueza e, junto com ela, desperdício em escala monumental. Em 2024, a região gerou aproximadamente 88,4 milhões de toneladas apenas entre as cinco principais culturas da região (cana-de-açúcar, soja, milho, mandioca e algodão). Com base em fatores de geração calculados a partir dos dados do SIDRA/IBGE, isso representa uma estimativa de aproximadamente 70,9 milhões de toneladas de resíduos agrícolas. A maior parte desse material termina queimada a céu aberto, enterrada ou simplesmente abandonada. Uma região historicamente marcada pela escassez desperdiçando aquilo que poderia ser sua maior riqueza energética.
A tese que defendo é direta: os resíduos agroindustriais do Nordeste não são um problema de descarte, são uma solução energética à espera de investimento e vontade. Transformar bagaço de cana, palha de soja, talos de milho, cascas de mandioca e hastes de algodão em bioenergia não é utopia tecnológica, é economia circular aplicada ao chão do sertão, com potencial de gerar energia limpa, fertilizar solos degradados e criar empregos onde hoje existe apenas resíduo.
Grande parte dos resíduos gerados pela agricultura nordestina não recebe destinação adequada, sendo descartada no solo ou estocada para queima rudimentar, práticas que liberam gases poluentes, degradam o ambiente e desperdiçam uma fonte energética de enorme valor. Essa realidade evidencia, ao mesmo tempo, um problema grave e uma oportunidade estratégica que o Nordeste ainda não soube aproveitar plenamente.
O potencial está nas próprias culturas que sustentam a região. A cana-de-açúcar é o exemplo mais consolidado, enquanto o caldo segue para a produção de açúcar e etanol, o bagaço e a palha seca, antes vistos como sobra, são hoje utilizados para gerar eletricidade nas usinas e produzir bioetanol de segunda geração, formando um ciclo quase perfeito que outras culturas ainda precisam alcançar.
Nas plantações de grãos, como soja e milho, a situação é semelhante. A palha da soja, os talos e os sabugos de milho concentram grande quantidade de energia que, por meio da pirólise (aquecimento controlado sem oxigênio), pode ser convertida em bio-óleo combustível e biochar. Este último merece atenção especial, pois se trata de um carvão vegetal poroso que, ao ser incorporado ao solo, aumenta sua capacidade de reter umidade e nutrientes, melhora a fertilidade e ainda contribui para o sequestro de carbono, tornando-se um aliado tanto da produção agrícola quanto do clima.
A mandioca e o algodão completam essa engrenagem. No processamento da mandioca, as cascas e a manipueira (líquido residual rico em matéria orgânica) podem ser aproveitadas em processos de digestão anaeróbica para a produção de biogás, transformando um passivo ambiental em fonte de energia, enquanto o algodão deixa no campo hastes e galhos secos com alto poder calorífico, ideais para a gaseificação e geração de bioeletricidade diretamente nas propriedades rurais.
Ignorar esse potencial é escolher o atraso.
Juntas, essas cinco culturas formam uma cadeia completa de biomassa com potencial para abastecer comunidades, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e movimentar uma nova economia no interior nordestino. O que falta não é matéria-prima; ela já existe em abundância, esperando para ser usada. Articular o reaproveitamento da cana-de-açúcar, do algodão, da mandioca, da soja e do milho é mais do que uma escolha técnica; é uma decisão civilizatória. O Nordeste já provou, ao longo de séculos, que sabe extrair energia de condições adversas.
Agora, diante da urgência por fontes de energia limpa, a região tem nas próprias sobras do campo a matéria-prima para escrever um novo capítulo de sua história. Cada tonelada de resíduo queimada sem aproveitamento representa energia desperdiçada, carbono lançado à toa e uma oportunidade perdida de desenvolvimento local. Por outro lado, cada usina de biogás instalada, cada lote de biochar devolvido ao solo e cada quilowatt gerado a partir da biomassa nordestina representam um passo concreto em direção a uma economia que não desperdiça.
O futuro energético do Brasil pode muito bem nascer no interior do Nordeste. Para isso, basta uma mudança de perspectiva: o resíduo de hoje é a energia de amanhã.


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