artigo de opinião escrito por Lucas Tavares da Silva
No último 5 de Julho o Brasil inteiro ficou à frente da TV (ou do smartphone) para acompanhar a seleção masculina de futebol no embate contra a Noruega, pela Copa do Mundo, no sonho pelo hexacampeonato. O que poucos esperavam era que uma seleção com tão pouca tradição no futebol e com poucos jogadores conhecidos pela população comum, como era a seleção nórdica, iria eliminar, e até com certa facilidade, a seleção pentacampeã.
O que um número talvez ainda menor de pessoas esperava era que, para além de todo o efeito futebolístico, fosse possível traçar um paralelo entre a eliminação da seleção e o setor elétrico brasileiro. Em uma conjuntura em que o setor tem sido fortemente exigido ao mesmo tempo por resiliência e adaptação e em que há constantes desafios a serem vencidos, é válido perceber que, a assim como no futebol, derrotas dolorosas raramente acontecem por um único acaso, mas pela combinação de erros estratégicos, táticos e de execução e é aqui que podemos ver três tópicos que setor elétrico pode aprender com a eliminação da seleção canarinha:
O pênalti perdido: aos 14 minutos do primeiro tempo, o jogador brasileiro Bruno Guimarães desperdiçou uma penalidade máxima, defendida pelo goleiro norueguês. O pênalti é a chance mais clara de gol no futebol. Desperdiçá-lo significa frustrar uma vantagem construída e mudar completamente o rumo da partida. No setor elétrico brasileiro, podemos falar sobre algo semelhante: o Brasil possui condições excepcionais para liderar a transição energética, afinal possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, enorme disponibilidade de recursos solar, eólico e outras fontes alternativas de energia, grande potencial para geração distribuída, recursos hídricos, custos competitivos de geração, entre outras virtudes… mas potencial não é sinônimo de resultado. Estamos convertendo nossas vantagens naturais em vantagens econômicas e sociais na mesma proporção? O que temos visto é uma demora na aprovação de marcos legais claros, a judicialização de diversos temas e um setor que parece ter a “bola na marca da cal”, mas ainda com dificuldade em converter todo o potencial em realidade.
A desorganização tática: aos 23 minutos do segundo tempo, o treinador da seleção brasileira Carlo Ancelotti fez duas substituições cruciais ao jogo, no momento em que colocou em campo Danilo Santos e Neymar Jr. O que deveria ser uma solução, virou problema, não porque os jogadores fossem ruins, pelo contrário, são atletas de grandíssima qualidade, mas porque a entrada destes alterou o sistema de jogo. O Brasil abriu mão de um esquema mais vertical e buscou ter maior controle do meio-campo, mas acabou por ceder brechas ao adversário, que as aproveitou muito bem. Faltou ajuste. Faltou entender o que o jogo precisava. No setor elétrico, a expansão acelerada da Geração Distribuída (GD) e de grandes parques eólicos/solares é indiscutivelmente positiva. Contudo, introduzir essas novas peças sem adequar a “tática” do sistema (capacidade de transmissão, inteligência de rede e equilíbrio tarifário) gerou gargalos operacionais sérios, desperdício de energia limpa e custos adicionais repassados ao consumidor via encargos. E estamos colocando cada vez mais “jogadores” em campo: data centers, veículos elétricos, hidrogênio, armazenamento em baterias (BESS)… talvez alguns desses elementos se tornem parte da solução, mas estamos adaptando a infraestrutura, a regulação e os mercados para essa nova realidade? As políticas envolvendo cada tecnologia estão sendo desenhadas como partes de uma mesma estratégia ou estamos simplesmente colocando novas peças em campo? Fica o questionamento.
Por fim: Haaland. Para quem não conhece, Erling Haaland é o grande artilheiro da Noruega e foi o responsável pelos dois gols que culminaram na eliminação brasileira na Copa. Ele é um jogador aparentemente pouco participativo, contra o Brasil, tocou 30 vezes na bola. A título comparativo, o goleiro Alisson tocou 26 vezes. Então como um jogador de linha que toca na bola quase tanto quanto um goleiro foi tão decisivo? Sendo eficiente e inteligente. Ele teve poucas chances, mas foi 100% cirúrgico e decisivo no momento em que a oportunidade surgiu. O setor elétrico não deve ser diferente. Não basta ter energia, é preciso tê-la no momento certo, da forma certa. Em uma rede elétrica cada vez mais composta por fontes intermitentes (que dependem de sol e vento), o sistema não precisa apenas de volume bruto de energia ao longo do dia, mas de recursos “finais” e rápidos nos momentos de pico de demanda, que nem sempre coincidem com os picos de geração. Valorizar atributos como a rápida capacidade de resposta, armazenamento e gerenciamento pelo lado da demanda é ter a “eficiência de Haaland” para garantir a segurança do suprimento quando a geração renovável oscila.
Não basta ter energia, é preciso tê-la no momento certo, da forma certa.
Diferentemente da seleção brasileira, o setor elétrico não pode se dar ao luxo de “ser eliminado”, afinal de contas é um setor crítico e essencial para o país e seu desenvolvimento. Assim, todos os agentes, sejam diretos ou indiretos, devem estar atuando em coordenação em prol de um sistema cada vez mais eficiente, flexível, estruturado e capaz de atingir todo o seu potencial. O Brasil não pode contar apenas com seu “talento natural” (abundância de recursos), mas deve focar em planejamento, disciplina regulatória e execução. Se isto for alcançado, certamente será um “golaço”.
Referências
- Análise da Viabilidade Regulatória e Novos Modelos de Negócios para Sistemas de Armazenamento de Energia no Contexto do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026.
- CHIAPPINI, Gabriel. Investidores de hidrogênio verde aguardam decreto enquanto Brasil fica para trás.
- Eficiência que gera valor. Conheça a Resposta da Demanda.
- EQUIPE GNPW GROUP. Transmissão assume papel central na transição energética brasileira e mobiliza R$ 79,1 bilhões em novas expansões.
- MIRANDA, Leonardo. Anatomia da eliminação: imagens mostram como o Brasil desmoronou após mudanças de Carlo Ancelotti.
- SOUTO, Poliana. Lobbies travaram votação do PL 414 para reforma do setor elétrico.
- WILLIAN. Análise da eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas da Copa do Mundo – FootHub.


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