artigo de opinião escrito por Giovana Cardoso H. Santiago
A forte ventania que atingiu o estado do Rio de Janeiro em 29/07/2026 deixou milhares de consumidores sem energia elétrica por dias. Enquanto algumas regiões tiveram o fornecimento reestabelecido rapidamente, moradores da Baixada Fluminense e de regiões periféricas enfrentaram uma realidade muito diferente: bairros inteiros permaneceram sem luz por quase uma semana. Nesse período, não faltaram relatos de alimentos perdidos, idosos isolados, famílias sem conseguir se comunicar com ninguém, ruas completamente escuras em regiões perigosas e pequenos comerciantes acumulando prejuízos.
É comum tratar a falta de energia como um simples inconveniente, mas eletricidade hoje em dia deixou de ser apenas um serviço essencial para tornar-se condição básica de existência. E quando o fornecimento demora dias para ser reestabelecido, o problema deixa de ser técnico como um problema operacional e passa a ser social, afetando diretamente a dignidade das pessoas.
O que mais chama atenção, no entanto, não foi apenas o tempo necessário para reparar os danos causados pela ventania, mas a diferença na percepção do atendimento. Enquanto regiões economicamente mais valorizadas sofreram impactos pontuais, bairros periféricos permaneceram dias aguardando uma solução. Não se trata de afirmar que uma distribuidora escolhe deliberadamente quem atender primeiro, mas é inevitável questionar porquê em situações como essa justamente as populações mais vulneráveis acabam enfrentando os maiores tempos de espera e os prejuízos mais profundos.
Em situações como essas, evidencia-se um problema maior e uma característica pouco discutida do setor elétrico brasileiro: o consumidor/a população está presa a um modelo no qual não pode escolher quem distribui a energia elétrica para sua casa. A distribuição de energia funciona como um monopólio natural concedido pelo Estado, e o consumidor fica preso a um modelo no qual não pode escolher quem oferece o serviço de distribuição de energia elétrica para sua casa. Esse modelo até faz sentido no ponto de vista econômico, já que seria inviável construir diversas redes elétricas concorrentes ocupando as mesmas ruas.
No entanto, a qualidade do serviço precisa ser compensada por uma regulação forte, fiscalização eficiente e mecanismos capazes de responsabilizar as empresas quando a população é prejudicada, o que na prática, não acontece.
E quando não existe uma alternativa de fornecedor, o consumidor depende exclusivamente da capacidade da concessionária de responder aos problemas. E quando essa resposta demora dias para chegar, a sensação que fica é a de impotência. Afinal, não há para onde recorrer em busca de outro serviço. A energia elétrica, apesar de essencial, acaba sendo tratada como um serviço sobre o qual o consumidor possui pouca influência, mesmo sendo ele quem financia todo o sistema por meio da própria conta de luz. E essa conta, aliás, merece uma discussão muito mais ampla. Grande parte da população desconhece que uma parcela significativa do valor pago todos os meses não corresponde apenas ao consumo de energia. Um dos componentes da tarifa é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um encargo que financia diversas políticas públicas do setor, como a universalização do acesso à energia, a Tarifa Social e outros subsídios previstos na legislação. Embora esses objetivos sejam importantes, a CDE cresceu significativamente nos últimos anos e passou a representar um peso cada vez maior para o consumidor, que muitas vezes sequer sabe que está pagando por isso. A conta de luz vai ficando cada vez mais cara para além do custo da energia consumida por conta de encargos que a maioria dos consumidores sequer sabem que existem.
Essa falta de transparência acaba produzindo um efeito em que a sociedade sente o impacto do aumento das tarifas, sofre com falhas no fornecimento, mas não consegue participar de forma qualificada do debate sobre as decisões que moldam o setor elétrico. As discussões permanecem concentradas entre agentes do mercado, empresas, órgãos reguladores e formuladores de políticas públicas, enquanto o consumidor que financia todo esse sistema, quase sempre ocupa apenas a posição de quem paga a conta, para no fim, não receber um serviço de qualidade.
Então, mais do que discutir o preço da conta de luz e a qualidade do serviço prestado, o recente episódio da ventania no Rio de Janeiro deve servir como um alerta sobre a necessidade de tornar o setor elétrico mais transparente, mais eficiente e mais comprometido com quem depende dele diariamente. Afinal, energia elétrica não é e nem deve ser um privilégio, nem um serviço secundário. Enquanto aceitarmos que milhares de pessoas permaneçam dias sem energia após eventos climáticos previsíveis, tratando esse cenário como algo normal, estaremos ignorando que por trás de cada poste apagado, existem famílias inteiras tendo suas rotinas interrompidas. E um país que ainda naturaliza esse tipo de situação precisa, antes de tudo, repensar a forma como enxerga a própria infraestrutura que sustenta a vida da sociedade.
Afinal, energia elétrica não é e nem deve ser um privilégio, nem um serviço secundário.


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