Na Europa, você compra energia pelo celular. No Brasil, você não tem escolha

Na Europa, você compra energia pelo celular. No Brasil, você não tem escolha

02 out, 2026

Matheus Ribeiro

artigo de opinião escrito por Matheus Ribeiro

Na Europa, trocar de fornecedor leva alguns dias úteis e é feito pelo celular, você escolhe um plano e a nova empresa resolve o resto, sem obra, sem corte na luz, sem multa. Empresas como a Octopus, nascida no Reino Unido e hoje em sete países, transformaram isso em algo tão simples como trocar de operadora. Não é instantâneo, e há contrato e regras por trás, mas é uma liberdade que o consumidor brasileiro comum ainda não tem.

Para quem nunca ouviu falar disso, no Brasil existem dois mundos, a maior parte das pessoas vive no mercado cativo. Se você recebe a energia da distribuidora da sua região e paga a tarifa cobrada, sem escolher de quem compra, você é um consumidor cativo. Desde 2024 empresas ligadas na alta tensão (Grupo A) já podem migrar para o mercado livre de energia, onde essa lógica se inverte, e é o cliente que escolhe o fornecedor, buscando preço ou condições melhores. A Lei 15.269 abriu o caminho para que essa escolha chegue, aos poucos, a todos os consumidores, inclusive o residencial nos próximos anos.

Ou seja, essa possibilidade de escolha que parece algo só de europeu está vindo para sua conta de luz, mas antes de comemorar a economia que essa modalidade pode trazer, vale entender o que se esconde por trás de um preço de energia, porque como diz o ditado, o barato pode sair caro.

Essa escolha, na prática funciona assim, a empresa fecha um contrato com o cliente onde ela coloca um preço fixo pela energia e normalmente em contrato de anos, e isso é uma das atratividade desse mercado, a previsibilidade, saber o quanto vai pagar independente do que aconteça no mercado. Mas alguém tem que assumir esse “independente do que aconteça” esse alguém é a comercializadora.

Com esse contexto dado, de como o setor funciona, queria compartilhar um pouco da minha visão a respeito do que está por trás da conta final do cliente e os riscos envolvidos em fixar um preço, sabendo que o mercado é vivo e existem muitas variáveis. Primeiro como consumidor, saber que em um futuro próximo eu vou poder escolher de quem comprar a energia para a minha casa, assim como eu escolho uma operadora de internet, vejo como muito positivo para minha previsibilidade de gastos e para controle financeiro pessoal. Mas como um consumidor que trabalha no setor de energia, entendendo dos bastidores, sei que não é nada simples precificar a energia.

Algumas das coisas que entram nesse preço final e que o consumidor não vê são: encargos setoriais, impostos, clima, riscos operacionais, inadimplência, regulação, margem, entre outros, que de forma direta ou indireta são considerados no preço final da energia. E como citei no mercado livre esse preço normalmente é fixado por contratos de longo prazo, com a comercializadora por trás assumindo todos os riscos. As que não fazem isso da forma correta quebram, e podem deixar o consumidor “órfão” de fornecedor, exposto a preços de curto prazo, perdendo toda previsibilidade que se esperava. Os dados que vou compartilhar a seguir complementam o que levantei, e também a preocupação que eu tenho quando escolher fornecedor se tornar realidade.

Recentemente, uma sucessão de comercializadoras entrou em colapso financeiro no Brasil. Segundo levantamento da CNN, os passivos já passaram de R$ 10 bilhões, e esse número não inclui algumas empresas que ainda não tiveram suas dívidas divulgadas. Na lista tem de tudo: de pioneiras do mercado, como a Tradener, a nomes como Diferencial, América Energia, entre outras. Você pode pensar “e daí?”, mas quando uma quebra acontece toda uma cadeia é afetada, e seu bolso também.

Na crise energética que afetou o Reino Unido entre 2021 e 2022, agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, o preço do gás disparou, e a energia foi junto. Segundo o National Audit Office, o órgão de auditoria do Reino Unido, durante esse período, 28 comercializadoras quebraram, afetando cerca de 4 milhões de residências. Os clientes não ficaram sem luz, pois existe um mecanismo de proteção que transfere cada consumidor para outro fornecedor, mas alguém pagou a conta: o custo total foi de £2,7 bilhões, rateados para os demais consumidores, que tiveram ali um aumento da conta de luz de cerca de £94. No Brasil, essa mesma rede de proteção ainda está sendo construída, prevista na própria Lei 15.269.

Mas por que tantas empresas de energia, seja no Brasil ou no exterior, quebram? Acredito que um dos principais motivos é precificar os riscos de forma errada, ou seja, prever um cenário futuro que não se concretizou, ou que se concretizou muito diferente do previsto. Aliás, não acho que seja só má gestão. Existem riscos que vão muito além, e que são difíceis de precificar: exemplos são a crise hídrica de 2021 aqui, ou as guerras na Europa. Além disso, existe o risco de ficar exposto ao preço de curto prazo, e isso se dá por diversos motivos. Um exemplo: o cliente contrata 5MWm, mas consome 7MWm. Essa diferença a comercializadora pode ficar descoberta, tendo que comprar no mercado de curto prazo e, se esse preço for maior do que ela vendeu, tem prejuízo.

Portanto, poder escolher de quem comprar energia, como contrato qualquer outro produto, para mim é uma conquista, como consumidor, acho uma excelente notícia. Mas no meu ponto de vista, o crucial é escolher o fornecedor certo. E aí existe um perigo escondido, olhar só o preço. Voltando ao ditado, o barato pode sair caro, porque muitas vezes o preço mais baixo é o que não precificou corretamente os riscos. E quem não precifica certo é, geralmente, quem quebra. No fim, quem paga a conta são todos os demais consumidores, eu e você.

Como profissional da área, o que me preocupa é que empresas mais sólidas, que entregam uma boa gestão de risco, acabam sendo punidas por um mercado que ainda fecha pelo preço mais barato, deixando de lado quem tem muito mais chance de entregar essa energia.

Por isso, quando essa virada chegar, a conscientização vai ser essencial. As pessoas precisam entender que ao comprar energia, não estão comprando só energia, estão comprando um combo que é a gestão de risco. É isso que pode trazer mais equilíbrio ao mercado, menos empresas colapsando, e menos consumidores ficando órfãos de fornecedor.

As pessoas precisam entender que ao comprar energia, não estão comprando só energia, estão comprando um combo que é a gestão de risco.

Fontes

National Audit Office. The energy supplier market. Reino Unido, 22 jun. 2022. Disponível em: https://www.nao.org.uk/press-releases/the-energy-supplier-market/

Committee of Public Accounts. Regulation of energy suppliers. Parlamento do Reino Unido, 2022. Disponível em: https://publications.parliament.uk/pa/cm5803/cmselect/cmpubacc/41/report.html

CNN Brasil. Quebra de comercializadoras de energia acumula rombo que passa R$ 10 bi. 2 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/quebra-de-comercializadoras-de-energia-acumula-rombo-que-passa-r-10-bi/

BRASIL. Lei nº 15.269, de 24 de novembro de 2025. Diário Oficial da União. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025.

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