artigo de opinião escrito por Janaina da Cruz Carvalho
Você já ouviu falar do PEE, o Programa de Eficiência Energética? Esse programa nasceu pouco antes da crise hídrica enfrentada pelo país em 2001, um momento em que o sistema elétrico brasileiro passava por perigo real de apagões e o racionamento de energia elétrica era uma dura realidade enfrentada pelos brasileiros. Naquela época, o cenário era de escassez e a crise hídrica colocava em risco o sistema elétrico brasileiro.
Mais de duas décadas se passaram e hoje o problema enfrentado pelo Sistema Interligado Nacional (SIN) não é a escassez, pelo contrário, o que coloca em risco sua operação é justamente a abundância de fontes geradoras. Com a crescente inserção de fontes renováveis e intermitentes, como a energia eólica e a geração solar fotovoltaica, o SIN tem operado frequentemente com excessos de geração em períodos de baixa demanda.
O resultado prático disso são os recorrentes cortes de geração (o chamado curtailment) e vertimentos de usinas hidrelétricas, desperdiçando grandes volumes de energia limpa e barata. Em contrapartida, no final do dia, quando o sol se põe e a carga residencial dispara, o sistema volta a ficar sob forte pressão para suprir a demanda.
Nesse sentido, a questão atual não é necessariamente consumir menos energia, economizar cada kWh, mas sim saber quando consumir a energia, ajustar o consumo com a geração. Nesse caso, quando falamos sobre eficiência energética sob essa nova ótica operacional, o sistema mais eficiente não é necessariamente o que consome menos energia, mas sim o que faz o melhor uso da energia disponível.
O sistema mais eficiente não é necessariamente o que consome menos energia, mas sim o que faz o melhor uso da energia disponível.
Conversando com um amigo sobre o Programa de Eficiência Energética, o PEE, ouvi a seguinte frase: “A distribuidora já não tem mais onde trocar lâmpadas”.
Fazendo uma análise dos dados do PEE disponibilizados no portal de dados abertos da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), nota-se que no período de 2008 a 2019 houve uma tendência crescente de projetos aprovados pelo programa com uso final destinados à iluminação. O ano de 2019 é o ano com maior número de projetos com esse uso final, totalizando 475 projetos e um total expressivo de mais de 6 milhões de lâmpadas LED inseridas pelas distribuidoras. A partir de 2020 os projetos com este uso final começaram uma tendência de diminuição. Os dados mostram que, em 2025, foram apenas 172 projetos com este uso final, e um total de quase 3 milhões de lâmpadas LED. O que atesta e confirma a hipótese de que as distribuidoras de energia elétrica brasileiras, de fato, já não têm mais onde trocar lâmpadas.
Fica evidente que o cenário atual requer soluções que vão além da mera economia de energia pontual, sendo necessárias soluções de gestão de energia. Desse modo, os projetos financiados devem focar em soluções que respondam às necessidades de flexibilidade do sistema elétrico de hoje.
Para além de subsidiar trocas convencionais, precisamos direcionar os esforços para uma rede inteligente, para o deslocamento do consumo para os horários de maior oferta de renováveis, para a integração com sistemas de armazenamento por baterias e para mecanismos modernos de resposta da demanda.
Nesse sentido, o PEE pode e deve ser utilizado como a grande plataforma de implementação em escala real e difusão de mercado para soluções de consumo inteligente da energia disponível na rede. Todas as concessionárias de energia brasileiras são obrigadas por lei a direcionar parte de sua receita operacional líquida para o programa. Essa imposição legal assegura um volume expressivo e contínuo de recursos que precisa deixar de financiar tecnologias convencionais para acelerar a adoção de sistemas de flexibilidade, armazenamento e inteligência de rede.
Portanto, quando falamos de eficiência energética no contexto brasileiro, a lógica não pode ser a pura economia de energia, partindo do pressuposto da escassez. Em um país com abundância de geração renovável, eficiência energética deve tratar do aproveitamento desse potencial energético. Em um cenário de curtailment, a energia mais limpa, barata e eficiente já não é aquela que deixamos de usar. É aquela que consumimos em total sincronia com a dinâmica da nossa rede.


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